terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um solo musical inesquecível!

Um solo musical inesquecível!
Antonio Nunes de Souza*

Desde menino sempre tive uma inclinação e desejo de ser músico. Alias, não especificamente músico. O que eu queria mesmo era ser artista, ter fama, ser admirado na televisão e as gatinhas me assediando como eu via acontecer com os artistas da época.
Como era de família pobre e as dificuldades financeiras não davam margens a uma dedicação com mais afinco, com sete anos, nos horários que não estava na escola, tinha que sair pela rua vendendo amendoim torrado para ajudar o orçamento doméstico, não sobrando tempo para uma dedicação maior, com a intenção de alcançar meu sonho de um dia ser uma estrela no cenário nacional.
Quando completei 14 anos, mesmo não sendo mais o meu pensamento primordial ser um astro, ainda residia no fundo do meu peito aquele desejo cheio de esperanças remotas, embora já considerado um sonho de infância.
Aí, em um daqueles meus rotineiros dias, ao passar pela porta de uma residência, vi no lixo um braço de violão despontando pela boca do saco. Curiosamente, me aproximei e puxei o instrumento, percebendo que se tratava de um cavaquinho com seu bojo rachado, faltando algumas cordas e uma tarraxa. Juro que senti uma grande emoção pelo valoroso achado, vendo ali a possibilidade de recuperar aquele velho instrumento e começar, nas poucas horas vagas, praticar e iniciar a minha já quase esquecida, mas, ainda sonhada vontade de um dia ser um artista.
Levei meu precioso achado para casa, limpei direitinho, aproveitei um resto de durepoxe que havia sobrado quando tapamos um buraco no cano da pia da cozinha, fiz um remendo com o maior carinho, tirei as enferrujadas cordas que sobravam e uma tarraxa para servir de amostra, para comprar na loja a que faltava.
Providenciei ir juntando uma graninha e, com uma semana, estava meu precioso “cavaco”, mesmo com um som um pouco de taboca rachada, em condições de ser utilizado, principalmente por mim, que não sabia nem o nome das notas, logicamente, não podendo ser exigente quanto à qualidade do instrumento. O fato é que era o início de uma caminhada esperada por muitos anos e o primeiro passo para a realização do devaneio de um jovem pobre.
Seu Quincas, dono de uma birosca perto da nossa casa, tocava cavaquinho por diletantismo, e logo me veio a idéia que ir pedir a ele para afinar o cavaco e, com jeito, solicitar que me desse algumas aulas iniciais e depois eu compraria um daqueles livrinhos tipo manual, que constam algumas músicas e as seqüências de notas. E o resto eu ia me arranjando.
Contando com a boa vontade de seu Quincas, que me conhecia desde menino, não demorou um mês eu já dava meus primeiros acordes, sentindo-me orgulhoso com o progresso que estava alcançando. E, com o passar do tempo, fui conseguindo tirar de ouvido algumas das musiquinhas que são, basicamente, soladas no cavaquinho.
Hoje, com 22 anos, ainda não cheguei a ser um astro, mas faço parte de um modesto conjunto de pagode do bairro, nos apresentamos nas festinhas de aniversários, e eu sou um dos destaques da turma por tocar o instrumento principal (um cavaquinho novo, é claro), sendo a atenção das garotas da vizinhança.
Mas, toda essa lembrança veio em minha mente nesse instante, em virtude de ter me recordado de um fato marcante que aconteceu três anos atrás. Convidei uma mina que era um tesão e desejada por todos, para irmos ao cinema. E, depois que começou o filme, iniciamos uma seqüência de beijos e agarrações e fui subindo minha mão lentamente pelas suas coxas até chegar ao seu sexo, polpudo, redondinho e com pelos uns tanto crespos, fazendo lembrar-me do meu querido cavaquinho.
Tereza, esse era o seu nome, arrepiada e cheia de emoções, abriu um pouco mais as pernas, ajeitou os quadris para frente da poltrona do cinema e disse em meu ouvido: Eu gosto tanto quando você está tocando!
Aí, não pensei duas vezes. Apalpei com carinho aquele úmido sexo e, com o dedo anular, comecei a solar “Brasileirinho”.
Ela, arrepiando-se toda, respirava ofegante em meu ouvido, num gesto de aprovação pela música que escolhi e a cadencia carinhosa que, com muita desenvoltura, eu imprimia sem sair do ritmo.
Pena que esse meu solo não foi gravado em um CD, mas, em compensação, está fixado em minha mente para o resto da vida.

F I M

*Escritor (Vida Louca – ansouza_ba@hotmail.com)

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