quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Adorável Ludinha!

Antonio Nunes de Souza*

Ludmilla, que nada tinha de russa, era uma menininha do morro que, como a Conceição de Cauby, vivia a sonhar com coisas que o morro não tem. Ganhou esse nome, dado pela mãe, que viu na tv uma linda mulher e, logo acompanhando o modismo, a batizou de Ludmilla Bispo dos Santos. Sobrenomes genuinamente nacionais, quase que atestando sua origem de pai desconhecido!

Desde de pequenina, Celina sua mãe, mulata conhecida nas rodas dos sambas e pagodes, já lhe ensinava a dançar, rebolar e, principalmente, fazer “caras e bocas” para ser mais atrativa e, logicamente, bem safadinha. Obviamente, com essa criação desregrada e livre, cedo já estava mexendo e requebrando nas camas e barracos da sua comunidade. Aliás, infelizmente como é normal, desde treze anos as meninas se tornam mulheres, principalmente as mais “gostozinhas e bonitas”, como era o caso de Ludinha. Sua mãe, ainda fogosa e meia porralouca, pouco ligava para o comportamento da filha. Se via ou sabia, achava normal, ou não ligava deixando a zorra rolar. Esse comportamental nas favelas, não tem nada de sobrenatural ou absurdo!

Ludinha, ganhou corpo de mulher, peito e bunda empinadinha, herdada das suas raízes negras, com o rosto enfeitado com uma dentadura de invejar o teclado de um piano de calda de alto luxo. Com seu sorriso e o jeito meio “sacana” do olhar, ganhava qualquer cara, seja moço ou coroa, pois, a essa altura, sua vida era, simplesmente, fazer vida!
Bem remunerada, além de presentes, convites para fazer companhia em viagens, passeios, fim de semana nas praias e, na verdade, qualquer negócio que rendesse prazeres e grana!

E, como aconteceu com Sua mãe, aos 17 anos engravidou sem saber nem quem era o pai e, com aquela ilusão de ser mãe tão jovem seria maravilhoso, terminou tendo a sua filhinha, que foi batizada com o nome de Sacha, logicamente, Bispo dos Santos, logo apelidada de “Sachinha”, uma vez que pobre coloca nomes exóticos mas, logo em seguida, só tratam eles por apelidos!

Ludinha se refez do parto, nada mudou no seu corpo, continuou a sua vida anterior, como era de se esperar começou a ensinar a Sachinha, dançar, rebolar, sorrir, fazer caras e bocas, etc., seguindo a mesma criação que recebeu!
Hoje Celina sua mãe, já meio coroa vive de lavar roupa de ganho, Ludinha nos Funks, pagodes e sambas nas lajes, ainda jovem com seus trinta anos e, nossa querida Sachinha, com 13 anos começando a debutar nas camas e motéis, seguindo a linhagem profissional da família!
Até quando teremos que assistir a repetição desse triste e horrível comportamento?

*Escritor – Membro da Academia Grapiúna de Letras – AGRAL – antoniodaagral26@hotmail.com

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ninguém esperava!

Antonio Nunes de Souza*

Tudo que acontece nesse mundo de “meu Deus”, na sua maioria, tem características interessantes e estranhas que, por mais que sejamos experientes, estudiosos, analistas, ou adivinhos, sempre somos surpreendidos por desfechos completamente inesperados e improváveis!

Estava agora rememorando o que aconteceu comigo e Isabella (meu nome é Ana), mas, desde criança somos tratadas como Aninha e Bela. Eu, menina pobre fui parar na casa de Bela em função do seu pai, homem rico e legal, contratar minha mãe para ser a governanta em sua casa e, além de dar uma quitinete no fundo, concordou que eu fosse junto, pois, sendo da mesma idade de Bela seria uma companhia para brincar e estudar.
Tínhamos sete anos nessa época e, com sua bondade, dr. Meira me matriculou na mesma escola da filha, custeando todos meus estudos. Minha mãe chorou de felicidade, mas, para mim que nada entendia, encarei como uma coisa normal. Brincávamos, passeávamos, saímos para aulas de piano, tênis, natação, balé, etc., praticamente como se fôssemos irmãs. Só que eu, mesmo sendo bonita, era negra e Bela era loura linda e com características escandinavas. Um contraste interessante, mas todos nos admiravam pela união, afeto, amizade e carinho. Era uma maravilha, pois, até a noite quando dr. Meira chegava, pegava as duas no colo e enchia de beijos e abraços, sempre trazendo chocolates para nós. Verdadeiro carinho de pai! Minha mãe, rezava muito agradecendo a Deus essa dádiva!

Fomos crescendo e, em função dessa amizade ardente e união, começamos a nós tocarmos e alisarmos pela curiosidade do sexo, que terminamos passando a ter verdadeiras relações sexuais, com orgasmos e sensações novas e boas em nossas vidas. Isso começou quando tínhamos dezesseis anos, já terminando o secundário e nos preparando para o terrível vestibular que, na verdade, não nos amedrontava, pois éramos ótimas alunas!
Esse amor carnal era nosso maior segredo e ninguém percebia, pois nossas características de irmãs, fazia com que essa ideia não pudesse brotar em alguma mente. Nos amávamos loucamente em nosso quarto, já que passei a morar junto com Bela, para que fosse mais fácil estudarmos e fazermos companhia a noite uma para a outra!

Passaram-se os anos, fizemos faculdade, nos formamos em medicina, dado a influência do nosso querido (pai e protetor). Nossa amizade sexual já durava oito anos, já que estávamos com 25 anos e, curiosamente, nunca chegamos a namorar com nenhum rapaz, conservando nossos afetos uma para a outra, que, sinceramente, preenchia nossos desejos, não dando lugar para ter a curiosidade de testar o sexo oposto!

Na nossa formatura ganhamos do dr. Meira uma viagem para passar 15 dias em Salvador, exatamente nos dias precedentes ao carnaval e mais uma semana posterior aos festejos. Não precisa dizer que enlouquecemos de alegria, pois, morávamos em Cuiabá e tínhamos loucura para conhecer a maravilha citada por todos, que era Salvador e seu desbundante carnaval!
Providências foram tomadas, reservas de hotéis, compra de Abadás do Chicletes e Olodum, além dos pequenos detalhes importantes para que as noitadas fossem delirantes. E, na verdade, foram!

Assim que chegamos, logo a noite fomos a um ensaio da Timbalada, que era uma verdadeira loucura, comandada por Carlinhos Brawn e seus timbaleiros. E, de estalo, eu conheci Hiltinho, que não era garotinho, mas, com seus 40 ou 50 anos, derramava charme e dançava como ninguém e, ao mesmo tempo, Bela conheceu Maurício Benjamim, cara sarado, super alegre, muito doidão e animado. O verdadeiro barriga de tanquinho, já que vivia sempre em cima das pranchas de surf. Dançamos loucamente, bebemos rimos e nos divertimos até o dia raiar, acontecendo o inesperado: levamos ambos para o nosso hotel, transamos quase até as dez horas da manhã, dormimos e, pela tarde, depois do almoço as 15 horas, eles foram nos mostrar a Praia do Porto, point respeitável dos turista de todo o mundo!

A essa altura, percebemos que estávamos dando um tempo em nossa relação, mas, que estava valendo a pena a nova e deliciosa experiência peniana. Assim como nós, os dois estavam também vidrados na gente, já que além de bonitas, tínhamos classe e qualificações. Principalmente pela nossa independência, já que, para eles, tudo era 0800!

Encurtando a conversa, passamos um carnaval inesquecível, ficamos nos correspondendo e eles indo nos ver eventualmente, até que, resolvemos nos casar. Eles foram bem recebidos pelo dr. Meira (que era viúvo) e pela minha mãe que transbordava de felicidade.

Já se passaram 10 anos, temos dois filhos cada uma (curiosamente casais). Moramos, por um pedido do pai de Bela, que, para mim, já era também o meu pai (pois me perfilhou há pouco tempo). Sempre vamos passear em Salvado e ficamos hospedados o no apartamento do sogro de Bela, dr. Hélio ou na casa de minha sogra Dayse em uma praia famosa chamada Arembepe!
Ninguém poderia imaginar esse desfecho, principalmente, nós duas que, por uma década fizemos as mais fervorosas juras de amor eterno e fidelidade!

Essa “vida louca” sempre nos oferece histórias, completamente, inusitadas!

*Escritor – Membro da Academia Grapiúna de Letras –AGRAL – antoniodaagral26@hotmail.com
   


terça-feira, 27 de setembro de 2016

O sonho de cada um !

Antonio Nunes de Souza*

Normalmente, os habitantes de centros urbanos, sempre sonham em ganhar muito dinheiro, serem ricos, famosos e poderosos. Mas, nas pequeninas cidades ou comunidades de arredores suburbanos, seus personagens e moradores, mesmo vendo nas novelas o estardalhaço das riquezas, sentem que, essas fantasiosas vidas, somente existe nas ‘telinhas”, ou para pouquíssimos privilegiados!
Digo isso pela experiência que vivi na minha infância até o fim da juventude, vendo meus pais, feirantes de verduras e temperos verdes, batalharem constantemente e, o maior sonho de meu pai era ter uma bicicleta. Imagine vocês, que sonho pobre miserável: ter uma simples bicicleta! Mas, para ele, adquirir seu transporte próprio, representava maior status e independência de coletivos. Infelizmente, a grana era sempre curta, pois perdia-se muitas mercadorias em função do calor que as ressecavam, ou das chuvas que não deixavam os clientes irem as feiras livres. Tinha que rezar para as duas estações climáticas para não desequilibrar os orçamentos.
Vi e senti na pele todos esses tormentos ao longo dos meus 17 anos, até que, casualmente, um desses caçadores de promessas futebolísticas, foi ao nosso campinho e gostou do meu jeito de jogar bola e convidou-me para levar-me para treinar em um grande time que ele era “olheiro”. Meio sem fé, como nada custava, mesmo sem falar com meus pais, marcamos e no dia seguinte fomos até o estádio da grande equipe. Juro que cheguei a tremer de emoção e medo de decepcionar, ou mesmo de perder aquela chance inesperada.
Após as apresentações ao técnico, me passaram o material do treino (eu nunca tinha jogado com chuteiras) e fomos para o bate bola! O técnico escolheu dois times e me escalou para meio de campo, acreditando na recomendação do “caçador de estrelas”!
Para encurtar a conversa, em meia hora fiz três gols driblando toda defesa titular e jogando a bola no fundo da rede. A essa altura, eu despreocupado no meu jogo, nem percebi que chamaram o diretor de esporte para me ver jogar e, sem nenhuma dificuldade, fiz um outro de meia bicicleta no goleiro titular do esquadrão. Foi aí que ouvi umas palmas e gritos dos poucos espectadores formada pelos funcionários e diretores da entidade!
Assim que deu o intervalo, avançaram em mim, levaram-me para o escritório, mesmo eu todo suado e, logo queriam que eu assinasse um contrato provisório com a equipe. Como nada estava entendendo, pedi que deixasse eu falar com minha família primeiro. Eles disseram que me buscariam em casa no dia seguinte pela manhã e acertaríamos tudo. Porém, talvez para me prender ao compromisso, me adiantaram mil reais. Para mim, tudo aquilo era novidade e jamais pensei em ser jogador de bola. Meu sonho era continuar com o negócio de meus pais, pois sou filho único e assim fazendo, estaria realizado.
O cara foi me levar, mas, pedi a ele que passasse em uma loja, pois esse primeiro dinheiro que tinha ganho, queria realizar um grande sonho do meu pai. Entrei e, sem nem pechinchar, comprei uma bike novinha, colocamos na caminhonete do olheiro e fomos para casa. Eu com os olhos marejados, já estava vendo a felicidade do meu pai. E não deu outra, contei antes tudo ocorrido e depois fui ao carro e trouxe a bicicleta, dando-lhe um beijo e um abraço. Não precisa dizer que o choro brotou de ambos os lados, enquanto minha mãe sorria de alegria!

Encurtando a conversa, hoje jogo no Atlético de Madrid, ganho uma fábula mensalmente, já fui convocado para a seleção brasileira algumas vezes, moro com meus pais em uma linda mansão, somos super felizes e, meu pai, mesmo tudo isso já tenha passado 7 anos, ele guarda a bicicleta que lhe dei de presente, sempre limpando-a e lubrificando-a como se fosse uma joia rara!
Confessei tudo isso da minha vida para apenas mostrar que, como diz o ditado popular, “toda araruta tem seu dia de mingau!”
Lute muito, mas, acredite na sorte para realizar seu sonho!

*Escritor – Membro da Academia Grapiúna de Letras – AGRAL – antoniodaagral26@hotmail.com