sábado, 23 de novembro de 2013

O Natal está chegando!

Antonio Nunes de Souza*

Com a aproximação dos festejos natalinos, jamais poderia me esquecer de Zeca Barbudo que, por cultivar carinhosamente uma bonita barba branca, ganhou esse apelido há bastante tempo. E, em função disso, sempre fazia o papel de Papai Noel nas festas da sua família como também em alguns eventos das escolas dos seus filhos. Lógico que tudo isso era uma graça para ele, pois não tinha nenhuma remuneração, mas, via-se em seu rosto, mesmo maquiado, o brilho da sua satisfação. Era um Papai Noel de mão cheia e dava seu recado com amor, beleza e educação. Por esses motivos, evidentemente, era amado pela criançada e suas mães corujas que acompanhavam suas lindas crias!
Os anos foram passando, sua fama crescendo na cidade e um dia, inesperadamente, recebeu uma carta de um grande Shopping Center, solicitando sua presença para uma reunião, no sentido de tratar de assuntos do seu interesse. Obviamente, ficou curioso, porém imaginou que poderia ser uma boa proposta de emprego já que tinha como profissão a área da economia e administração de empresas e, ainda com cinqüenta e nove anos, já estava aposentado, procurando algo para fazer no sentido de ampliar seus rendimentos.
No dia marcado, colocou seu blazer favorito e, sem pestanejar, saiu de casa em direção a empresa, já pensando que voltaria a ter a sua sala e retornar ao trabalho que tanto lhe agradava. Entretanto, chegando lá foi bem recebido pelo diretor de recursos humanos, acompanhado do responsável pela agência de publicidade, sentaram-se e, sem delongas, foram logo dizendo: Você é exatamente o homem que estamos precisando muito nesse momento! Não precisa dizer que essas palavras encheram seu ego de confiança e alegria, dizendo pra si mesmo: Oba! Já estou empregado!
-Poderiam me explicar com mais clareza de que se trata?
-Fizemos um estudo, pesquisamos sua pessoa, comportamento e chegamos a conclusão que o senhor poderá ser o símbolo do nosso Natal, representando a figura de Papai Noel.
-Senhores, embora já tenha feito esse bonito papel dezenas de vezes para a família e eventos de amigos, não levo isso à sério como uma profissão complementar que possa ser usada comercialmente.
-Pois, a partir desse momento, passe a encarar essa nossa proposta como algo especial, uma vez que estamos dispostos a lhe remunerar com R$20.000,00 pelo seu trabalho de apenas 6 horas diárias durante os meses de novembro e dezembro. Com refeições e lanches, além de um carro para buscá-lo e levá-lo para casa diariamente. Apenas não terá folgas, pois nossas lojas abrem todos os dias.
Em princípio, achando que seria apenas um bico sem maiores significações, até riu intimamente, contudo, pela nota que iria receber para fazer algo que lhe deixava feliz, acabou aceitando, sem mesmo comunicar a sua família. Imaginando como seria engraçado contar para a mulher, filhos e seus melhores amigos. Assim sendo, ficou tudo combinado, assinaram contrato e já marcaram para ele tomar instruções sobre o comportamento que teria que exercer durante o trabalho.
Voltou para casa, sorrindo sozinho em função da proposta inesperada, para fazer algo que, certamente, além de fazer a felicidade da criançada, também o deixaria com o espírito elevado perante Deus. Achou que receberia uma gozação emérita de todos, mas, ao contrário disso, foi agraciado com carinho e estímulos de todos que, orgulhosos, ficaram loucos para vê-lo em ação.
No seu primeiro dia, logicamente um pouco nervoso por ter que enfrentar milhares de pessoas diariamente, estar sempre sorridente e abraçar as centenas de crianças que o rodearia. Porém, seguiu em frente, dirigiu-se ao departamento de maquiagem para ampliar a barriga quase inexistente, além de colocar suas bochechas avermelhadas como são representadas a de S. Nicolau. Seguiu para sua cadeira de espaldar alto e toda trabalhada, bastante acolchoada, braços confortáveis, banco para descansar os pés, etc. Um conforto digno do rei da festa. Sentou-se relembrando as recomendações do diretor de marketing e, silenciosamente, fez uma oração, pedindo a Deus que tudo funcionasse a contento.
Na proporção que o shopping ia enchendo, maior era o número de crianças, suas devotas mães os colocavam em seu colo para tirar fotos, cochicharem seu pedidos de presentes, dar beijos e abraços, enfim, curtirem aquele momento de sonho e afetividade que as criançadas dedicam ao seu maior doador de presentes na infância. Ouvia tudo com carinho, minimizando com cuidados os pedidos mais absurdos, prometendo que tentará cumprir, etc.
No fim do seu expediente, bastante elogiado pelo pessoal da empresa e os lojistas esperançosos por boas vendas, se desfez de suas vestes, indo para casa no veículo fornecido pela diretoria. Lá chegando foi recebido com beijos, abraços e um jantar especial comemorativo pela sua nova e maravilhosa função profissional. Porém, ao deitar-se, resolveu passar um filme dos seus contatos com as crianças e, com sua memória privilegiada, passou a lembrar de alguns pedidos carregados de inocência e amor, onde a maior preocupação era com a segurança de seus pais e irmãos, implorando que os protegessem dos ladrões, assassinos, motoristas bêbados, policiais perversos e incompetentes, balas perdidas e outros perigos maiores e menores que, pelas suas idades, me deixaram bastante estarrecido, mas, lembrei-me que, com as informações diariamente e constantemente das TVs, essas crianças já estavam super familiarizadas com essas barbaridades das nossas loucas vidas cotidianas. Alguns, por incrível que possa parecer, pediram para que eu não deixasse nem seu pai nem sua mãe os matassem! No meio da multidão você, logicamente, promete quase tudo, principalmente esses pedidos esdrúxulos, mas, naquele momento que você tem de paz para raciocinar, começa a sentir como a selvageria está tomando conta dessa nova geração que, logicamente, serão os futuros dirigentes da nação. Esse detalhe foi marcante e deixou-lhe pensativo e aflito por longo tempo, até que o cansaço o levou para os braços de Morfeu!
Na manhã seguinte, ainda inculcado com aqueles pensamentos nada agradáveis, fez algumas coisas em casa e, as 14:00 horas o carro chegou para levá-lo. Preparou-se e seguiu para seu especial lugar, onde já havia uma grande formação de aconchegantes mães e crianças para a rotina normal do contato pessoal com o velhinho presenteador. Seguiu normalmente com suas atividades, que se tornam uma rotina diária, mas, existe uma mudança constante nos pedidos, principalmente os mais absurdos e inviáveis de serem cumpridos, somente se for uma dádiva divina, pois, a capacidade humana sem estar aliada a uma boa solidariedade, dificilmente poderá dar resultados alentadores e respeitáveis na nossa vivência cotidiana. Existem duas vertentes de comportamentos: a boa e a ruim!, Porém, por uma burrice descomunal, o homem apóia a segunda, sem atinar que agindo assim está criando cobras para serem picados no futuro. São uns tolos travestidos de sabidos!
Esses pensamentos todos passaram e continuam passando pela cabeça do nosso querido Zeca Barbudo, deixando-o triste, ressentido dentro de uma depressão, uma vez que não consegue se convencer que estamos vivenciando um sistema estúpido de individualismo e egoísmo. Tornou a voltar para casa no horário normal, carregado de alegrias e, em seu saco mental, não deixou de gravar as lamúrias e os pedidos terríveis feitos pelas crianças, esperançosas da sua competência em realizar seus desejos afetivos e materiais. Nada comentava a esse respeito com os familiares, guardando dentro de si todas as mágoas que o atormentavam.
Alguns dias depois, já costumado e com desenvoltura no trabalho, ao cair da tarde, ladrões tentaram roubar uma joalheria e, com o aparecimento da polícia, começou um bruto tiroteio no ambiente, muitas correrias e Zeca Barbudo naquele momento estava com duas crianças no colo e para protegê-las, se levantou correndo exatamente para a saída, onde, infelizmente, estava centralizada a artilharia. Nesse instante, não sabendo de onde, recebeu um certeiro tiro no tórax, deitou-se sobre as crianças para protegê-las e desmaiou. A confusão acabou, chamaram o SAMU para atendê-lo e algumas outras pessoas com ferimentos leves em função das correrias. Quando o colocaram na maca, completamente imóvel e mudo, Zeca ouviu de uma criança aflita que gritou bem alto: Papai Noel não morra antes do Natal para você me dar meu presente! Ele, fazendo uma força que somente Deus poderia lhe dar naquele momento, abriu os olhos, disse que sim e, duas lágrimas saíram escorrendo em sua rosada face, enquanto seu corpo dava os últimos estertores da morte!
Perdemos todos, esse homem bom, solidário, humano, um exemplo de como deveríamos ser todos nós. Jamais esqueceremos Zeca Barbudo que, com seu sorriso e suas vestes, encantou e deu brilho a centenas de festas natalinas e, por uma razão que jamais tive explicação plausível, foi levado num dos momentos mais felizes de sua gloriosa vida.
Reconheço a minha dúvida de fé, mas jamais me conformarei com o dito popular já enraizado perante os religiosos: “Os bons Deus leva para perto Dele!”. Será essa uma medida cheia de sensatez?

*Escritor – Membro da Academia Grapiúna de Letras de Itabuna – antoniodaagral26@hotmail.com


Nenhum comentário: