Antonio
Nunes de Souza*
Semana
santa próxima, nada melhor que se falar a respeito da sua refeição preferida,
que é o peixe e, logicamente, pescador!
Não
é nenhuma novidade, e é de conhecimento geral, que os pescadores sempre
aparecem com “estórias” mirabolantes e grandiosas, geralmente com detalhes
incríveis, visionárias e exageradas. Tanto que, nas rodas da vida, quando
alguém fala algo que está acima das normalidades, todos logo repetem em coro, a
classificação de “estória de pescador”!
A
mais famosa delas, foi retratada em 1952, pelo famoso escritor (Nobel da
Literatura em 1954), Ernest Hemingway, através do seu livro “O VELHO E O MAR”,
escrito em Cuba!
Porém,
mesmo sabendo dessa faceta dos pescadores, temos que dar ouvidos a algumas delas,
principalmente, quando são grandes pescadores que, singrando o mar sem
limitações, sempre depois de uma quinzena, voltam com seus pescados, e contam
os fatos acontecidos durante seus percursos!
Rommel,
advogado por profissão, mas, pescador emérito por diletantismo, além do seu
barco, quase um saveiro ou escuna, há muito não fazia suas excursões marítimas,
ficando preocupado apenas com a vendagem dos grandes cardumes, pescados em alto
mar pela sua equipe de auxiliares embarcadiços, que na verdade, eram os reais
pescadores!
Com
seus cinquenta e sete anos bem vividos, um dia Rommel resolveu, para matar a
saudade, ir em uma das viagem de pescaria. Infelizmente, depois de dois dias em
alto mar, aconteceu uma tormenta inesperada e violenta, que a embarcação não
resistiu e virou no meio das grandes ondas, jogando todos para fora. Ainda
tiveram tempo de pegar um bote inflável e remos, que acolheu aos três
marítimos, porém, Rommel sumiu no meio das águas. Com a bruta chuva, ondas
gigantes e a agonia de todos, nada se via pela frente e pelos lados, que
pudesse ser a pessoa do nosso querido pescador!
Ao
amanhecer, o tempo voltou com uma calmaria super tranquila e, pelas suas
experiências, conseguiram remar até a costa, aportando alguns quilômetros da
sua cidade!
Entraram
em contato com familiares, que foram busca-los, mas, a falta de Rommel era
sentida por todos que, naquela altura já o davam como morto, afogado pelo mar violento!
Ele
era um solteirão inveterado, e de parentes tinha apenas uma irmã, que com seu
marido, ajudavam na administração e vendas dos pescados!
Muita
tristeza por vários dias, aí foi que aconteceu o inesperado. Depois de um mês
da tragédia, apareceu um táxi e, deixando todos completamente apavorados, sai
de dentro o nosso querido Rommel, forte e robusto, provocando uma alegria
inusitada com misturas de choros, pois, todos lhe queriam bem!
Prepararam
uma reunião no próprio salão da peixaria, não só para comemorar o retorno, como
também para que todos ouvissem de Rommel o que aconteceu com ele!
A
noite com a chegada dos convidados, cada um trazendo iguarias e bebidas, todos
sentaram, e ele começou a contar sua aventura de Netuno, o Deus do Mar!
Depois
de uma hora mais ou menos, me batendo nas ondas e ventanias, apareceu uma
mulher linda que me agarrou nos braços, e foi seguindo para um lugar mais
calmo. Eu mesmo meio desfalecido, agradecia a Deus ter enviado essa exímia
nadadora para me salvar. E, numa hora de desespero, eu abracei a moça pela
cintura e percebi umas escamas, aí desci mais as mãos e, apavorado, vi que era
uma Sereia com sua longa cauda de peixe. Essa constatação me deixou, mesmo
estando sendo salvo, completamente apavorado e sem acreditar nesse absurdo.
Mas, sinceramente, era pura verdade!
O
fato é que ela me levou para uma grande caverna, cuidou dos seus pequenos
ferimentos, preparou alimentação deliciosa, somente com frutos do mar e ervas
marinhas. Então, passados uns dias, como acontece quando existe um aconchego
entre um homem e uma mulher, transamos uma noite inteira no maior amor. Da
cintura pra cima beijos e abraços, embaixo ferro e espeto no peixe. Foi uma
delícia incrível esse mesclado, que mais parecia um sonho!
Passado
um mês nesse romance de salvamento, ela me levou nas costas para perto da
praia, saltei, lhe deu muitos beijos de gratidão e, sinceramente, já estava
ficando meio apaixonado. Nos despedimos, cheguei a praia, pedi socorro e, como
estava na cidade vizinha, todos já sabiam do meu sumiço, me ajudaram, deram
roupas, dinheiro para o taxi, e aqui estou eu sã e salvo cheio de saúde!
Todos,
principalmente os pescadores, com suas bocas abertas e entre trocas de olhares,
olharam para o céu e agradeceram a Iemanjá, por ter salvo o grande amigo!
Rommel
comprou um novo barco, continuou sua vida como era antigamente e, segundo o
pessoal da aldeia, depois de nove meses, pescaram um tubarão que era a “cara de
Rommel”.
Todos
ficaram na maior dúvida: Será que esse danado desse peixe é filho de Rommel?
A
verdade é que ele morreu depois de muitos anos, e ninguém sabe na verdade, como
foi que ele se salvou. Mas, a dúvida da sua “estória” perdura até hoje!
*Escritor, Historiador, Cronista, Poeta e um
dos membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!