domingo, 24 de maio de 2026

LEMBRANÇA ROMÂNTICA DE UM CARTEIRO! (Clique e leia)

 

Antonio Nunes de Souza*

Às vezes acontece deitarmos no sofá para ver um filme na televisão, e sem sentir ou premeditar, vem em nossa mente lembranças curiosas e interessantes de fatos ocorridos em nossa vida. E nesse momento, mesmo com os olhos fixos na telinha, praticamente nada vejo, pois, meus pensamentos estão no ano de 1980, quando fiz um concurso para os Correios, para trabalhar com as atualmente quase extintas cartas.

No primeiro dia peguei a minha sacola pesando uns quatro quilos, coloquei nos ombros, e anotei o nome do bairro que faria as entregas. O meu era longe e periférico, pois, vim a saber depois, que eles dão os suburbanos para os novos que chegam.

Rapaz...andei pra cacete, casas sem números, ruas sem placas, numerações erradas e algumas vazias, que coloquei as correspondências por baixo das portas. Ao anoitecer, quando terminei as entregas, estava cansado pra caralho, quase que arrependido de ter escolhido essa profissão, mas, não tinha opção, meu problema era um emprego para minha subsistência.

O tempo foi passando, trabalhei em bairros de classe média, e em seguida, já com 3 anos de trabalho, fui designado para um bairro Vip, onde somente tinham belas casas e mansões. E nesse ambiente, somos recebidos pelas empregadas ou damas de companhia, que sempre nos oferecem um suco, cafezinho ou lanche, que são muito benvindos. Pela minha frequência, já estava conhecido da criadagem, que quando eu chegava era convidado a entrar na cozinha, sentar e me fartar. Passei a adorar meu trabalho, as cartas foram se minimizando, o peso era suave e suportável.

Até que um dia, numa dessas casas que eu já me sentia a vontade, ao chegar fui empurrando a porta da cozinha e entrando, quando notei que a empregada não era a mesma de sempre. Fiquei meio sem jeito, perguntei por Dalva (a empregada) e se ela não trabalhava mais lá. A moça olhou para mim, deu um sorriso e disse: Dalva foi trabalhar na casa de praia e eu estou aqui sozinha. Pedi desculpas por ter entrado, mas, que assim fiz em função de Dalva sempre me convidar, e me dava generosamente um lanche. Ela falou que não tinha problema, e preparar um lanche para mim. Sentei-me, esperei, até que ela voltou com uma bandeja com dois sanduiches mistos e uma Coca-Cola geladinha. Fiquei pasmo, pois, a esmola estava exagerada. Mas, comecei a comer numa boa, ela sentou-se ao meu lado e começamos a conversar. Em princípio aquelas conversas bobas e fúteis sem sentidos, porém, depois de alguns minutos já estávamos rindo, eu contando minha vida, ela somente sendo boa ouvinte. Terminei o lanche e levantei-me agradecendo para seguir as minhas entregas. Aí ela falou: Amanhã, mesmo que não tenha carta para aqui, venha nesse horário para um lanche, que será um prazer. Achei estranho, porém, como não aceitar um convite de uma mulher, que além de bonita me daria um rango legal.

Daí pra frente todos os dias eu ia ver Jessica (esse era seu nome), ela me servia pizza, esfirra, comida chinesa, que eu a elogiava bastante pelas comidas gostosas que fazia. Ela apenas sorria. O fato é que começamos a namorar depois de uma semana desses encontros alimentícios e papos diversos. Então...passei a ir não mais a tarde e sim a noite, que a encontrava bem vestida e perfumadíssima. Perguntei quando a família voltaria do veraneio na praia, ele disse-me que demorariam dois meses. Aí, entre beijos e abraços diários, as coisas foram se adiantando, que naturalmente passamos a transar, inclusive no quarto que ela disse que era da filha do dono da casa. Fiquei meio cabreiro, imaginando que poderia dar algum pepino, mas, ela tranquilamente, disse-me que nada aconteceria, deixando-me mais calmo.

Aconteceu que numa noite ela resolveu abrir o jogo, e disse-me que era a filha do dono da casa, o médico Francisco Assis de Freitas Mota, famoso nacionalmente e que os lanches que me servia, ela pedia através de Delivery. Ri na hora, mas, isso me abalou, já que eu estava gostando dela e da situação, porém, pobre já trás na mente o preconceito de se relacionar com pessoas acima do seu nível social e cultural, coisa que é difícil nós contornarmos. Mas, ela meigamente e carinhosamente, convenceu-me que isso nada tinha demais, que seu pai era um homem super educado, e com certeza apoiaria a escolha de sua querida filha.

Passados os dois meses a família voltou, eu evitei aparecer por uma semana, mesmo morrendo de saudades. Aí, incrivelmente, ela foi aos correios no departamento pessoal, pegou meu endereço e, tranquilamente, foi a noite ao meu encontro. Tomei o maior susto, ela abraçou-me beijando-me muito, disse que já tinha conversado a respeito de tudo, e ele mandou que eu lhe convidasse para jantar, pois, gostaria de lhe conhecer. Fiquei completamente atordoado. Alegre e ao mesmo tempo confuso, mas, para tentar ficar com ela, para mim seria válido.

Coloquei a minha melhor roupa e fui ao jantar no dia seguinte, me receberam muito bem, tanto Dona Célia como Dr. Francisco, passei a me sentir mais à vontade, e a partir daí, continuamos nosso namoro, que teve um futuro brilhante. Pois, essa lembrança eu estou tendo, exatamente na casa de praia, que herdamos dos pais da minha querida esposa Jessica, que está deitada dormindo com nosso casal de netos, que vieram passar as férias com os avós.

Coisas inesperadas, que acontecem nessa Vida Louca que vivenciamos!

*Escritor, Historiador, Cronista, Poeta e um dos fundadores da Academia Grapiúna de Letras!  

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