Antonio Nunes de Souza*
Às vezes acontece deitarmos no
sofá para ver um filme na televisão, e sem sentir ou premeditar, vem em nossa
mente lembranças curiosas e interessantes de fatos ocorridos em nossa vida. E
nesse momento, mesmo com os olhos fixos na telinha, praticamente nada vejo,
pois, meus pensamentos estão no ano de 1980, quando fiz um concurso para os
Correios, para trabalhar com as atualmente quase extintas cartas.
No primeiro dia peguei a minha
sacola pesando uns quatro quilos, coloquei nos ombros, e anotei o nome do
bairro que faria as entregas. O meu era longe e periférico, pois, vim a saber
depois, que eles dão os suburbanos para os novos que chegam.
Rapaz...andei pra cacete, casas
sem números, ruas sem placas, numerações erradas e algumas vazias, que coloquei
as correspondências por baixo das portas. Ao anoitecer, quando terminei as
entregas, estava cansado pra caralho, quase que arrependido de ter escolhido
essa profissão, mas, não tinha opção, meu problema era um emprego para minha
subsistência.
O tempo foi passando, trabalhei
em bairros de classe média, e em seguida, já com 3 anos de trabalho, fui
designado para um bairro Vip, onde somente tinham belas casas e mansões. E
nesse ambiente, somos recebidos pelas empregadas ou damas de companhia, que
sempre nos oferecem um suco, cafezinho ou lanche, que são muito benvindos. Pela
minha frequência, já estava conhecido da criadagem, que quando eu chegava era
convidado a entrar na cozinha, sentar e me fartar. Passei a adorar meu
trabalho, as cartas foram se minimizando, o peso era suave e suportável.
Até que um dia, numa dessas casas
que eu já me sentia a vontade, ao chegar fui empurrando a porta da cozinha e
entrando, quando notei que a empregada não era a mesma de sempre. Fiquei meio
sem jeito, perguntei por Dalva (a empregada) e se ela não trabalhava mais lá. A
moça olhou para mim, deu um sorriso e disse: Dalva foi trabalhar na casa de
praia e eu estou aqui sozinha. Pedi desculpas por ter entrado, mas, que assim
fiz em função de Dalva sempre me convidar, e me dava generosamente um lanche.
Ela falou que não tinha problema, e preparar um lanche para mim. Sentei-me,
esperei, até que ela voltou com uma bandeja com dois sanduiches mistos e uma Coca-Cola
geladinha. Fiquei pasmo, pois, a esmola estava exagerada. Mas, comecei a comer
numa boa, ela sentou-se ao meu lado e começamos a conversar. Em princípio
aquelas conversas bobas e fúteis sem sentidos, porém, depois de alguns minutos
já estávamos rindo, eu contando minha vida, ela somente sendo boa ouvinte.
Terminei o lanche e levantei-me agradecendo para seguir as minhas entregas. Aí
ela falou: Amanhã, mesmo que não tenha carta para aqui, venha nesse horário
para um lanche, que será um prazer. Achei estranho, porém, como não aceitar um
convite de uma mulher, que além de bonita me daria um rango legal.
Daí pra frente todos os dias eu
ia ver Jessica (esse era seu nome), ela me servia pizza, esfirra, comida
chinesa, que eu a elogiava bastante pelas comidas gostosas que fazia. Ela
apenas sorria. O fato é que começamos a namorar depois de uma semana desses
encontros alimentícios e papos diversos. Então...passei a ir não mais a tarde e
sim a noite, que a encontrava bem vestida e perfumadíssima. Perguntei quando a
família voltaria do veraneio na praia, ele disse-me que demorariam dois meses.
Aí, entre beijos e abraços diários, as coisas foram se adiantando, que
naturalmente passamos a transar, inclusive no quarto que ela disse que era da
filha do dono da casa. Fiquei meio cabreiro, imaginando que poderia dar algum
pepino, mas, ela tranquilamente, disse-me que nada aconteceria, deixando-me
mais calmo.
Aconteceu que numa noite ela
resolveu abrir o jogo, e disse-me que era a filha do dono da casa, o médico
Francisco Assis de Freitas Mota, famoso nacionalmente e que os lanches que me
servia, ela pedia através de Delivery. Ri na hora, mas, isso me abalou, já que
eu estava gostando dela e da situação, porém, pobre já trás na mente o
preconceito de se relacionar com pessoas acima do seu nível social e cultural,
coisa que é difícil nós contornarmos. Mas, ela meigamente e carinhosamente,
convenceu-me que isso nada tinha demais, que seu pai era um homem super educado,
e com certeza apoiaria a escolha de sua querida filha.
Passados os dois meses a família
voltou, eu evitei aparecer por uma semana, mesmo morrendo de saudades. Aí,
incrivelmente, ela foi aos correios no departamento pessoal, pegou meu endereço
e, tranquilamente, foi a noite ao meu encontro. Tomei o maior susto, ela
abraçou-me beijando-me muito, disse que já tinha conversado a respeito de tudo,
e ele mandou que eu lhe convidasse para jantar, pois, gostaria de lhe conhecer.
Fiquei completamente atordoado. Alegre e ao mesmo tempo confuso, mas, para
tentar ficar com ela, para mim seria válido.
Coloquei a minha melhor roupa e fui
ao jantar no dia seguinte, me receberam muito bem, tanto Dona Célia como Dr.
Francisco, passei a me sentir mais à vontade, e a partir daí, continuamos nosso
namoro, que teve um futuro brilhante. Pois, essa lembrança eu estou tendo,
exatamente na casa de praia, que herdamos dos pais da minha querida esposa
Jessica, que está deitada dormindo com nosso casal de netos, que vieram passar
as férias com os avós.
Coisas inesperadas, que acontecem
nessa Vida Louca que vivenciamos!
*Escritor, Historiador, Cronista,
Poeta e um dos fundadores da Academia Grapiúna de Letras!
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