Antonio Nunes de Souza*
Embora ninguém pense nisso e nem
espera, mas, infelizmente, merdas acontecem inesperadamente, que nós jamais
saberemos as explicações. Principalmente elas sempre acontecem, quando estamos
alegres, felizes, e achando que as coisas estão correndo as mil maravilhas. E
foi o que aconteceu comigo!
Estava muito feliz, pois, tinha
feito um concurso para um excelente emprego numa empresa multinacional, havia
passado em primeiro lugar, sendo que era apenas uma vaga, e com minha
classificação, lógico que ela seria minha tranquilamente.
Acordei, como solteiro e morar
sozinho, vi que não tinha nada para meu café da manhã, resolvi ir ao
supermercado para fazer algumas compras. Lá aproveitei para fazer um lanche
matinal. Durante o tempo que fiquei lanchando, vi uma movimentação de pessoas
no centro do salão do mercado, perguntei ao atendente do balcão de que se
tratava. Aí ele disse-me que estavam preparando para fazer o sorteio mensal do
carro para os clientes. Eu fale que tinha anos que comprava ali, e nunca ganhei
nem um bombom de brinde.
Nesse instante eu vi anunciar que
tirariam agora o cupom do grande vencedor. Não sei a razão, mas, resolvi virar-me
para ouvir melhor o resultado, e foi quando ouvi o locutor dizer: O vencedor privilegiado
é cliente Fernando Caldas, de Salvador!
Tomei um puto susto, pois, meu
nome é exatamente esse. Mas, como sou previdente e desconfiado, fui logo ver o
endereço do cupom premiado, para checar se era eu ou tratava-se de algum
homônimo. Tremendo de emoção, saí furando a multidão de gente, cheguei ao homem
que coordenava o evento, pedindo a ele para me dar detalhes do ganhador. Aí,
ele em vez de me responder, falou no microfone para todos: O ganhador mora na
Avenida ACM, 122, segundo andar, que através do seu telefone, faremos a
comunicação e marcaremos a entrega oficial. Porra mermão! Não me contive em
ficar calado e disse para ele que era eu. Ele pediu minha carteira de
identidade, eu tirei e mostrei, ele checou meu CPF, e ao mesmo tempo, pediu a
todos uma salva de palmas para o premiado, que estava ali ao seu lado. Ouvi
palmas e gritos, sorrindo sem acreditar nesse fato que acabava de acontecer
comigo. Imaginei logo a puta sorte que estava tendo, além do bom emprego. E foi
a partir dessa hora que começou a minha agonia. Pois, o homem resolveu fazer a
entrega, tirei várias fotos, filmado para a publicidade nas redes e TVs, recebi
as chaves, entrei liguei o motor e recebi outra salva de palmas dos presentes.
Como tenho carteira de
habilitação, mesmo sem nunca ter tido carro, depois do esvaziamento do
ambiente, peguei os documentos, ele já estava com emplacamento pago, faltando
apenas ser feito no nome do vencedor. Mais que depressa, peguei o endereço da
agência responsável e fui logo oficializar o meu querido prêmio. O processo foi
rápido, que no mesmo dia eu já estava com minha caranga habilitada para
transitar.
Providenciei um estacionamento
privado perto de casa, acertei para usar, já confiado no novo emprego. No dia
seguinte, como se fosse um passe de mágica, recebi um e-mail da London Service
S/A, solicitando a minha presença no dia seguinte as 10 horas, e que viesse com
bagagem, pois, deveria ir para uma filial, para fazer um curso de uma semana,
afim de começar na função. Isso me deixou numa felicidade invejável, já que
tudo estava como deveria ser, e até mais do que eu mereço. Para ser sincero, eu
nem consegui dormir direito, preocupado em não acordar na hora certa para me
apresentar. Mas, me deitei assim que arrumei a mala com algumas roupas,
inclusive um terno para alguma eventualidade.
Pela manhã, as 9 horas eu já
estava no carro, seguindo para a empresa, pois, lá tem um enorme
estacionamento, que eu poderia deixa-lo até a minha volta.
Trânsito ruim, várias paradas,
comecei a me sentir atrasado, e já que deu uma chance passei a acelerar mais, e
aí aconteceu a minha tragédia. Numa transversal apareceu um caminhão baú, que
me fechou completamente, fazendo com que eu batesse em dois carros e me
chocasse em um muro de concreto. A pancada foi tão grande que me levaram para o
hospital totalmente ferido e desacordado, que somente acordei cinco dias
depois, ainda sedado em função dos procedimentos médicos.
A primeira coisa que me lembrei
foi do emprego, mas, meu celular perdeu-se na batida, eu nem sabia o que tinha
acontecido com meu carro. No decorrer do dia fiquei sabendo que o carro estava
no departamento de trânsito, e que haviam duas queixas dos proprietários dos
carros que bati, exigindo pagamentos dos estragos.
O fato é que fui ter alta um mês
depois, mesmo ainda debilitado, fui ver o carro e tive que vende-lo, já que não
tinha dinheiro para conserta-lo, com o dinheiro indenizei os estragos dos
veículos, me sobrando apenas umas merrecas de dois mil e quinhentos reais.
Completamente desesperado pelo ocorrido, resolvi ir até a empresa, no sentido
de justificar a minha ausência. Lá chegando, eles lamentaram profundamente,
porém, infelizmente, já que eu não compareci e não deu nenhuma justificativa em
uma semana, eles chamaram o candidato que se classificou em segundo lugar, ele
foi fazer o curso e já está trabalhando normalmente. Apenas, o que eles
poderiam fazer era, posteriormente, se precisarem de outro funcionário na
função, poderiam me dar preferência.
Nessa hora pareceu que havia
caído uma avalanche em minha cabeça, me vi numa situação filho da puta, sem
dinheiro, desempregado, em convalescença e perdi o meu lindo carro.
Vejam vocês que nem sempre quando
ganhamos alguma coisa, essa coisa vai trazer benefícios. Se eu não tivesse
ganhado a merda do sorteio, nada disso teria acontecido comigo. Essas são as inesperadas
ironias do destino!
*Escritor. Historiador, Cronista,
Poeta e um dos membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!
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