Antonio Nines de Souza*
Como acontece com milhares de
nordestinos, que partem para São Paulo em busca de uma vida melhor, onde tem
maiores possibilidades e oportunidades, seguia no ônibus dona Maria Aparecida,
levando em seu colo a filha Sandra com seis meses de idade e ao lado seu filho
Arthur com um ano. Para fazer economia na longa viagem, levava uma farofa de
carne seca numa lata de leite ninho, já que os filhos ainda estavam se
amamentando, ela sendo boa de leite, garantia alimentá-los durante o percurso.
Essa atitude foi tomada, porque o seu marido tinha ido meses atrás e não mais
deu notícias, deixando-a sem eira nem beira.
Depois de quase vinte horas de
viagem, chega ela na rodoviária, ficando completamente espantada com a multidão
de gente e, principalmente, por não saber para onde ir, já que nada conhecia e
seu pouco dinheiro não daria para uma pensão, assim como não sabia como
encontrar. E no desespera que se encontrava, saiu andando sem destino,
carregando a filha e arrastando pelo braço seu pequeno filho, que chorava
pedindo colo. Uma situação triste e cruel para uma pessoa sem instrução, pobre
e dois filhos, praticamente recém nascidos. Já cansada, viu uma marquise de uma
casa abandonada, e sem pestanejar, sentou-se, colocou Arthur deitado com a
cabeça em suas pernas, enquanto dava de mamar a Sandra, sentindo-se aliviada
temporariamente.
Aí, como um milagre, surgiu um
homem dizendo-se advogado, que encostando e vendo as crianças, perguntou se ela
precisava de alguma ajuda. Ela naturalmente, como fervorosa católica, imaginou
que ele teria caído do céu, e prontamente contou a sua história com lágrimas
escorrendo pelo rosto. Mostrando-se bastante penalizado, ele se prontificou de
arranjar uma pensão modesta para hospedá-la, dizendo que era de uma amiga, que
lhe daria guarida e ele garantia o pagamento, já que era uma caridade cristã,
que lhe faria bem sem representar sacrifícios!
Aparecida ficou num quarto com
cama de casal, que dava acomodar ela e os filhos, dona Jacira proprietária da
pensão mostrou-se muito gentil, indicando o guarda roupa para ela arrumar suas coisas
que vieram em uma modesta sacola.
Nisso o advogado Mendonça se
despediu, dizendo que no dia seguinte passaria lá para ver se tudo ia bem com
ela e as crianças, inclusive verificar a possibilidade de conseguir algum
trabalho para ela. Ela agradeceu em nome de Jesus, demostrando uma felicidade
que não imaginou encontrar tão cedo nessa enorme cidade. Mas, estava
completamente desiludida de reencontrar o marido, já que ele não deu uma única
notícia depois de meses que viajou!
E como prometeu, dia seguinte Dr.
Mendonça apareceu na parte da tarde, acompanhado por um casal de estrangeiros
seus amigos, os apresentou a Aparecida, que meio sem jeito devido a sua
pobreza, não se sentiu a vontade, porém, feliz já que as coisas estão
acontecendo mais rápido do que poderia esperar. O casal ficou brincando com as
crianças, e depois de algum tempo, Mendonça falou que seria muito difícil
conseguir um trabalho para ela, tendo duas crianças para cuidar. E que o casal
falou e ele traduziu, que eles adorariam levar a Sandra para a Itália, e que
eram ricos e dariam uma educação e luxo a sua querida filha, em vez de deixa-la
aqui para tornar-se empregado doméstica ou outra profissão dolorosa. Ela tomou
um susto, apertou nos braços a filha, dizendo imediatamente que não aceitaria
tal proposta. Porém, com o decorrer da conversa e a astúcia de convencimento de
Mendonça, ela foi cedendo, até que se conformou, uma vez que reconheceu que
seria um terror para ela, ter que manter e educar dois filhos, mediante a
situação que se encontrava. O casal ficou bastante feliz, agradeceu bastante e,
como reconhecimento, deram a ela uma boa quantia, além de pagar sua hospedagem
por seus meses para Jacira, que também participava do esquema de Mendonça, na
questão de doações clandestinas.
Como a história é longa, se você
quiser saber o desfecho, veja amanhã a continuação que é bastante
surpreendente!
(Escritor, Historiador, Cronista
e um dos membros fundadores de Academia Grapiúna de Letras!