Antonio Nunes de Souza*
Não posso deixar de dizer que,
infelizmente, hoje já não estou preparado e cheio de euforia e tesão, para
enfrentar uma semana de porralouquices no maravilhoso carnaval de Salvador!
Como posso deixar de lamentar
meus quase quarenta anos brincando, dançando, paquerando e na maioria das vezes
terminando com belíssimas fodas escondidas da madame, na rua pelos cantos, no
carro ou somente acontecia em casa, quando voltávamos eu e a patroa, que não
deixava de ser também uma gostosura, mesmo sendo caseira e habitual. Todo isso
era divertido, alegre e perdoável, pois, carnaval é uma puta festa, que não tem
limites para as loucuras e extravagâncias. Tudo que você faz nesses dias, são
coisas consideradas naturais e normais, ficando as idiotas condenações e
pecados, para outras ocasiões de dias comuns, porque os dias de carnaval nunca
serão normais nem comins!
Fui um freguês assíduo da Praça
Castro Alves, chegando ao ponto de ficar tremendamente conhecido das baianas e
vendedores ambulantes, que até guardavam meu lugar, quando eu atrasava um
pouco. E eu estava sempre acompanhado dos meus manos Gilberto Gil, Caetano
Veloso, Paulinha, Mabel, Rodrigo, Roberto, Nicinha, Irene, Carlos, Clara, J.
Veloso, Maria, Beto e sua linda Mulher Caribé, Maria Bethânia, Gal Costa, Marina
Lima, Chico Mota e Célia, Tonho Matéria, Geraldo Abadá, e muitos e muitos
artistas globais. E não posso deixar de citar meus queridos amigos, Marcos, Maurício,
Hiltinho, Marcelo, Dão e outros, que se for nomeá-los vai encher dezenas de
páginas, pois, também tinham aqueles de outros estados, que eram figuras certas
anualmente!
Sem ligar para as multidões, saí
dezenas de vezes do meu lugar, e com Caetano entrávamos no meio da pipoca e
depois de pular bastante, subíamos num trio elétrico que passava, Caetano
cantava umas músicas, depois descíamos voltando aos nossos lugares na estátua
do grande maestro. Fiquei tão conhecido no pedaço, que quando as pessoas do Rio
e Sampa perguntavam a Caetano como poderiam encontra-lo no carnaval, ele
respondia: “Vá na Praça Castro Alves e se você ver um cara alto de cabeça
branca junto a estátua, eu estou ao seu lado!” (tenho cabelos brancos desde os
30 anos).
Como Caetano recebe Abadás de
todos os Blocos, nas tardes que tinha disposição, eu saía em alguns deles, mas,
somente pequenos percursos.
Nessas minhas maravilhosas
loucuras momescas, não posso esquecer, o dia que fomos (eu e minha mulher) como
convidados especiais, para desfilar na Mangueira, que estaria homenageando os
“Doces Bárbaros (Gil, Caetano, Bethânia e Gal). Foi uma verdadeira glória,
pois, ficamos numa ala “Amigos dos Doces Bárbaros”, onde só tinha estrelas e
astros, não só do teatro, televisão, como também dos esportes. Como fiquei ao
lado da atriz Malú Mader (que arrasava na época), fomos bastante filmados durante
o desfile. Cheguei ao final da apresentação literalmente fodido, pois, você é estimulado
e obrigado a não parar de sambar, para valorizar a nota da escola junto os
jurados!
Não posso de jeito nenhum, deixar
de citar as noitadas maravilhosas e nababescas, nos luxuosos camarotes 2222 de
Gil e o de Daniela Mercury, onde além de ter as maiores mordomias possíveis, reúne-se
a nata “creme de la creme” das lindas e famosas mulheres nativas, nacionais e
internacionais. Sentia-me um privilegiado e verdadeiro Paxá!
Para que vocês tenham uma ideia
mais precisa, depois de 1966 que vim morar em Itabuna, passei a ir para
Salvador uma semana antes da abertura do carnaval, e sempre voltava uma semana
depois, pois, na quinta ou sexta feira de cinzas, eu alugava uma grande escuna,
enchia com esses amigos, comida e bebidas que todos participavam, e fazíamos um
passeio maravilho pela Baía de Todos os Santos, parando em praias paradisíacas
e virgens, e no fim da tarde um delicioso almoço de Moqueca de Peixe com
Camarão na bela Ilha de Maré. Passeios
esses, que lembro-me babando de saudades!
Tudo isso é uma pequena parte da
minha inesquecível maratona carnavalesca, que, infelizmente, os anos não trazem
mais, excetuando na minha ótima e gloriosa memória. Vale dizer, que fiz essa
zorra toda com o suor do meu trabalho, pois, nunca herdei porra nenhuma na
vida!
Aproveitem minha gente, pois, a festa
está começando, e hoje está até bem melhor, pois, não tem dia para terminar!
*Escritor, Historiador, Cronista,
Poeta e um dos membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!