Antonio Nunes de Souza*
Todos os dias chegam aos nossos
olhos e ouvidos fatos incríveis, estranhos e inacreditáveis, que com certeza nos
deixam cheios de espantos ou sem saber se devemos acreditar ou não, mas, com o
tempo, chegamos a conclusão que aconteceram, estão acontecendo e, com certeza,
voltarão a acontecer!
Eu, com o nome fictício de
Larissa, vou passar a contar para vocês, a história da minha vida, que
certamente, verão e saberão os meus sofrimentos, prazeres e desprazeres que
passei, chegando a momentos desesperadores:
Nasci uma criança linda, sadia,
provocando para minhas duas irmãs e meus pais a maior alegria, já que estava
vindo por um descuido, pois, minha irmã caçula já tinha dez anos. Então, passei
a ser o xodó da casa, sempre de colo em colo com dengo e carinhos em excesso,
Claro que eu adorava e me sentia bastante feliz!
O tempo foi passando, eu
crescendo, mas, curiosamente sempre cheio de trejeitos femininos devido as
influências das minhas irmãs e pais, que apenas se preocupavam em satisfazer as
minhas vontades. No colégio passei a me identificar muito mais com as meninas,
chegando ao ponto de ter meus segredinhos com algumas sobre as belezas de
alguns meninos; E já iniciando aminha juventude, já me identificava como se eu
fosse mais uma menina que um menino, então resolvi falar para meus pais, mesmo
morrendo de medo pelas suas reações. E como eu esperava, foi uma bomba chocante
para eles e minhas irmãs, porém, depois de muitas conversas, resolveram acatar
minha estranha opção de mudar meu comportamental, fazer visitas a um analista,
mudar de colégio e, depois disso, começar a minha transformação de cabelos,
roupas e demais coisas inerentes a uma personagem feminina. Embora todos diziam
que concordavam, mas, eu percebia um grande ar de decepção em todos eles.
Porém, minha decisão, já com 14 anos, para mim era irrevogável!
Passei a tomar determinados
hormônios, e já com uma aparência de uma moça bonita e atraente, continuei os
meus estudos, quase chegando a concluir o secundário para fazer vestibular. Foi
aí que sofri a primeira grande decepção da minha vida. Um colega de classe
(fora os professores, ninguém sabia da minha condição) que era muito bonito, me
atraiu de tal forma, que me encorajei a para a dar mole com olhares e sorrisos
provocantes, até que ele percebeu e veio tentar me namorar, E claro que
aceitei. Porém, no nosso primeiro encontro fora do colégio, conversamos
bastante e eu para ser sincera, falei que era uma moça transsexual, achando que
ele entenderia. Mas, infelizmente, ele deu a maior gargalha em minha cara,
disse que não gostava de gay e que eu fosse procurar outro que gosta de homem.
E ao dizer isso, saiu largando-me sozinha no banco do jardim, super nervosa e
chorando copiosamente. Minha dor era como se tivesse acabado de receber uma
facada no coração e na mente, deixando-me completamente mortificada, sem nem
coragem para voltar para casa, carregando nos ombros o peso do fato acontecido,
inclusive ter que contar, discorrendo meu sofrimento. Depois de uma hora de
meditação, levantei-me e segui cabisbaixa para casa, levando na mente a ideia
de que eu nada significava para as outras pessoas!
Cheguei e aos prantos contei o
ocorrido, todos me acalentando e revoltados, meu pai queria ir reclamar com o
rapaz, mas foi contido por minha mãe, e eu pedi que me mudasse de colégio,
pois, provavelmente, o fato iria se espalhar, deixando-me bastante envergonhada.
Voltei a fazer as tais análises, mudei de colégio, mas, bem menos segura que
antes. Porém, senti-me melhor, já que o colégio era estritamente feminino.
Como era o último ano do
secundário, me entrosei bem com as colegas, mas, sempre guardando meu segredo.
Porém, sem que eu esperasse, passei a ter uma sensação de desejo e afeição por
uma das colegas, e passamos a ser amigas inseparáveis, frequentando as casas
uma da outra, simpatia e satisfação dos nossos pais e parentes, tudo correndo
as mil maravilhas. Aí, sentindo que a amava, resolvi um dia que ela foi dormir
em minha casa, para estudar as provas finais, e disse não só que a estava
amando-a, como também as minhas condições sexuais. Ela levantou-se da cama,
dizendo que me adorava, mas, além de não ser lésbica, não aceitaria como
parceiro um homem que optou por ser mulher. E dizendo isso vestiu-se e no meio
da noite, saiu escondida dos meus pais, indo embora para sua casa. Eu com a cabeça
estourando de dores, soluçando barbaramente, chegando a triste conclusão que eu
havia me transformado em um ser inexistente e fictício para o resto do mundo,
que, em nenhuma hipótese, seria aceita normalmente por essa sociedade machista
e preconceituosa!
Passei a noite em claro, chorando
e me maldizendo, com vontade até em suicidar, e pela manhã mesmo machucada e
envergonhada, contei o fato, mais uma vez deixando minha família pasma e sem na
verdade saber o que fazer. Eu, fortemente exigi voltar as análises diariamente,
pois, já tinha em minha mente o que deveria fazer dali em diante. Como sempre
minha família me apoiou. Fiz minhas provas finais, terminei o secundário e,
paralelamente fazendo as seções diárias de análises psicológicas, porém, no
sentido único de reverter minha sexualidade, já que continuava apaixonada por Jacira
minha linda colega. Reformei o meu penteado, cabelos curtos, passei a tomar
hormônios para reverter dos efeitos antigos, comecei a vestir com roupas normas
de rapaz, pouco ligando pela estranheza da vizinhança e, com seis meses, eu já
estava aclimatado a nova situação, sentindo-me seguro e confiante para
enfrentar o mundo sem medo de ser feliz, e de tão pouco sofrer discriminações
absurdas de pessoas idiotas e ignorantes!
Fiz vestibular, passei em
engenharia e, seis meses depois, corajosamente resolvi ir a casa de Jacira, me
apresentar em outra circunstância que, com certeza, não cabia nenhuma
recriminação. Vestindo terno e gravara, usando barba, toquei a campainha. Logo a mãe dela veio atender, não me
reconheceu, eu falei que gostaria de falar com Jacira, e ela mandou que eu
aguardasse, entrando pra chama-la. Em seguida veio minha ex colega, que
chegando, foi logo dizendo: eu não conheço você, mas, faz-me lembrar alguém muito
importante para mim tempos atrás. O que deseja?
Com uma voz máscula e bem
postada, falei: meu nome Joseilton Mendonça, sou estudante de Engenharia
Informática, e no passado fomos colegas de colégio e meu nome era Larissa,
quando eu, erroneamente, tinha escolhido uma outra opção de gânero. Mudei
completamente, graças ao grande amor que sentia e continuo sentindo por você!
Ela tomou um brutal susto,
olhou-me com mais atenção, viu o lindo homem que me transformei, e sem que eu
esperasse, abraçou-me dando-me um beijo com um abraço apertado, numa prova que
o amor existiu e existia ainda em ambas as partes.
Nossas famílias, mesmo com as controvérsias
e acidentes de percursos acontecidos, aceitaram nosso namoro, noivado e, agora
que vamos nos formar, já marcamos nosso casamento, inclusive durante esse
período já transamos centenas de vezes e, literalmente, nos damos muitíssimo
bem na cama!
Essa é a minha inusitada
história, que aconteceu, pode estar acontecendo com outros, ou acontecerá no
futuro; saibam que tudo é possível acontecer nessa Vida Louca que vivenciamos!
*Escritor, Historiador, Cronista,
Poeta e um dos membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!