Antonio Nunes de Souza*
O sonho das pessoas do interior,
geralmente é ir para cidades grandes aventurar a vida, já que todos dizem que
nesses lugares é que as coisas acontecem ou podem acontecer. No interior,
depois do curso secundário, o mais que se consegue é ser caixa de super mercado
ou vendedora de loja. Quando muito, um emprego de auxiliar de escritório na
prefeitura.
Como não sou diferente, com meus
dezenove anos, juntei umas merrecas, e com a ajuda dos meus pais, me borrando
de medo, segui para São Paulo numa viagem de ônibus, que parecia que nunca
chegaria. Logo ao chegar liguei para minha amiga Jacira, que também era de
Itabuna, que ficou de arranjar uma pensão barata e séria para eu me hospedar.
Uma hora depois, Jacira chegou, já com jeitão de paulista, peguei minha pequena
mala, tomamos o metrô, chegando em minutos em nosso destino. Me hospedei num
pequeno quarto, o banheiro era coletivo no corredor, mas, tudo era limpinho, e
a dona era uma senhora que parecia ser criteriosa nas escolhas dos seus
hóspedes.
Jacira foi embora, me passou seu endereço, e
disse que qualquer coisa podia procura-la.
Como tinha preparado e levado
muitos currículos, já no dia seguinte, fui para rua batalhar seguindo as
orientações de minha amiga. Pode acreditar que entrei em mais de cem
estabelecimentos de todos os tipos, pois, para mim qualquer coisa era importante,
para eu assegurar a grana para as despesas que são muitas. Tirei mais cópias do
currículo, pois, sempre deixava um nos lugares que sentia ter alguma
possibilidade.
Um dia, já meio agoniada e P da
vida, decidi folgar e espairecer a mente. Então resolvi ir visita o Museu de
arte moderna, que através da TV vi que era uma maravilha, e nesse dia a entrada
era franca.
Entrei meio insegura, mas, ao
observar as maravilhosas obras, fiquei deslumbrada, alegre e feliz, pois, tudo
isso representava algo encantador em minha vida. Seguindo pelas salas e
corredores, vi alguns pintores copiando obras famosas com tantas semelhanças,
que pareciam as originais. E, olhando um mural ao lado, vi um aviso que dizia: “Preciso
de uma mulher para modelo de um quadro. Paga-se bem. As interessadas falar com
Prof. Mendonça, Zap 11 92034-2970. Dei um sorriso e me imaginei sendo pintada e
imortalizada. Segui meu caminho admirando tudo em volta, aí, na merda que eu
estava, pelo desespero de já ter passado quase um mês e nada de um trampo tinha
pintado, voltei ao aviso e, ousadamente, resolvi ligar, arriscando tentar
conseguir a vaga, mesmo eu não sendo essas belezas todas. Mas, tenho um lindo
corpo e bastante charme.
Atendeu um homem com uma voz
firme, estranhando o aparecimento tão rápido, já que ele tinha postado o aviso há
apenas uma hora. Falou que gostaria de me conhecer e que eu fosse ao salão dos
pintores, que ele estaria lá me aguardando. Mesmo tremendo de nervosa segui, e
para minha surpresa, ele se apresentou, sendo um homem de mais ou menos trinta
e cinco anos, cabelos grisalhos nas têmporas, vestido com um avental cheio de
manchas de tintas. Tirou o avental, pendurou, e convidou-me para tomar um
cafezinho e conversar a respeito. Ele disse que eu atendia para ser o modelo
que ele precisava, e me pagaria por cada dia de exposição por três horas,
duzentos reais, porém, não seriam todos os dias e sim alternados, a não ser que
houvesse necessidade. Quase caí de costas de alegria, mas, sem demonstrar disse
que aceitaria, perguntando logo quando deveria começar. Ele disse sorrindo,
talvez percebendo minha felicidade, já que tinha contado minha história para
ele, que começaríamos no dia seguinte. Passou-me um cartão com o endereço do
seu estúdio, dizendo que me aguardaria as nove horas, e que fosse sem nenhuma
pintura. Achei estranho, mas, o importante era a grana que iria pintar com esse
inesperado trabalho.
As dez para as nove eu já estava
em frente ao estúdio, esperando a hora para tocar a campainha. Na hora exata,
toquei e, imediatamente, a porta foi aberta, ele mandou que eu entrasse, sentamos
num sofá e passamos a conversar. Depois de uns instantes, que já estávamos mais
descontraídos, ele falou algo que me deixou apavorada e até arrependida.
Disse-me que seria um quadro de nu artístico, tendo como fundo um vulcão em
erupção com chamas incandescentes. Fiquei bastante desconfiada, porém, ele
apanhou o esbouço do quadro e mostrou-me, e vi que o que ele disse era verdade,
porém, o que me assustava era ter que ficar nua para um homem estranho, por
três horas seguidas. Achei que não conseguiria, mas, ao mesmo tempo, veio a
mente que era a única coisa que tinha pintado e por uma boa grana. Então...seja
o que Deus quiser. Me lembrei da Ministra Marta Suplicy que disse: “Se já está
dentro, relaxe e gose”. E foi o que fiz aceitando o desafio.
Depois de tomar um suco, ele
sempre conversando amavelmente comigo, talvez para que eu ficasse tranquila,
por ser a primeira experiência minha nesse tipo de atividade, inclusive
requeria que eu ficasse o mais imóvel possível. Parece fácil para quem está de
fora, mas, é foda para quem está pousando. Ele, respeitosamente, pediu que eu
ficasse completamente nua, deu-me um manto colorido para que eu me enrolasse
nas horas de descansos. Fui para o quarto super nervosa, mas, tirei a merda
toda, inclusive a calcinha e, corajosamente, enrolada no manto fui para sala. Ele
muito sério, colocou-me no centro do estúdio, pedindo-me que fizesse o favor de
me descobrir para ele examinar o meu corpo, e ver a posição que eu aparecesse
no melhor ângulo. A essa altura eu já estava entregue ao “Deus dará” e seja o
que ele quiser. Por sorte eu estava depilada, para a vergonha não ser pior. Ele
virou-me várias vezes, observava dos pés a cabeça, frente e costas, notou que
eu tremia, procurou acalmar-me dizendo que com duas ou três vezes, eu passaria
a ver que é uma coisa normal e uma carreira de futuro. Depois dos exames
visuais, postou-me em pé em sua frente, e começou a rabiscar no esbouço uma
silhueta do meu corpo, isso com uma destreza e agilidade que me impressionou.
Completadas as três horas, ele pagou-me, vesti minha roupa, ele disse que eu
voltasse no dia seguinte, pois, de início seria necessário para ele pegar todas
coordenadas, e eu me adaptar a ficar o mais imóvel possível. Adorei, pois, era
mais grana para mim, já que estava nos dias de pagar a mês da pensão.
O fato é que me adaptei maravilhosamente,
o quadro ficou belíssimo, foi vendido numa vernissage internacional por uma
dinheirama gorda, e Mendonça que é um pintor de renome, generosamente, me
gratificou com dez mil reais, deixando-me super alegre. E, curiosamente, com a
divulgação do quadro pela mídia das pinacotecas, muitos pintores me procuraram
para modelo em outros tipos de versões, passei a ser quase uma celebridade na
área. Hoje, com vinte e seis anos, já tenho meu carro, um pequeno apartamento,
levo uma vida de boa, e tudo isso aconteceu num dia que eu estava bem desiludida.
Essas coisas inexplicáveis, acontecem
e fazem parte dessa “vida louca” que vivenciamos!
*Escritor, Historiador, Cronista,
Poeta e um dos membros Fundadores da Academia Grapiúna de Letras!