Antonio Nunes de Souza*
Mais uma vez transportei-me para uma noite junina,
enfrentando o frio úmido da beira rio, vislumbrando nosso lindo e poluído Rio Cachoeira,
na época e atualmente ornamentado por uma nova praça de lazer, onde as
bandeirolas dançavam ao som do vento e das bandas, caracterizando o nosso
famoso Carnajoão Baiano.
O povo, na euforia peculiar interiorana, deliciava-se com o
feriadão junino, entregando-se as sensuais e gostosas danças, esquecendo-se
momentaneamente seus problemas. Essa aliás é uma característica acentuado do brasileiro, que
bebendo, cantando, dançando e fazendo sacanagens, os problemas vão para segundo
plano. Historicamente é uma herança dos povos africanos, que em todas ocasiões
especiais (caça, pesca, guerra, paz, casamento, morte, etc.), usavam e ainda
usam cantos e danças como ritual necessário e eficiente. E graças a isso, somos
um povo sofrido, mas, paradoxalmente, super alegre.
O camarote oficial estrategicamente armado em
frente ao palco principal, proporcionava uma visão perfeita dos shows
apresentados, como também para vislumbrar a multidão enlouquecida, requebrando
grudados numa esfregação deveras maliciosa e bastante salutar. As roupas eram
de uma diversificação deslumbrante. Podia-se ver de micro saia até exagerados
trajes compatíveis com o frio andino. Não vi aquela antiga “Rita vestida de
chita, com um laço de fita que não tem mais tamanho”, pertencente aos versos de
Drummond. Não se faz caipiras como antigamente, graças a intolerável
globalização através das TVs. Em compensação deparei-me com dois guapos gaúchos
vestidos a caráter, dando um toque especial ao ambiente. Talvez essa
versatilidade de ritmos, roupas, danças e iguarias, sejam o que tornam
especiais as festividades brasileiras, principalmente a baiana, já que a miscigenação
aqui é mais abundante, e os novos hábitos e costumes aportam diariamente
através do turismo.
Além das mesas ornamentadas com garrafas de
licores diversos, os quitutes eram abundantes para que os convidados especiais
se deleitassem durante os papos políticos, sociais e econômicos, entremeados de
abobrinhas, eventualmente ocorridas nessas ocasiões. Mas, repentinamente,
conheci alguém com interesses compatíveis com os meus e, imediatamente,
começamos a conversar sobre os nossos sonhos de pretensos escritores
literários. Senti no seu olhar uma vontade forte de explodir com um romance
dantesco sobre a vida de uma mulher, que embora comum, apresentava nuances
especiais dignas de serem narradas. Dentro da complexidade eclética dessa
figura feminina, havia um homem que, como eu, chamava-se Antonio. Ri com a
conhecidência e interessei-me mais ainda por saber maiores detalhes. Claro que
não foi possível em função das interrupções constantes, como também pelo
processo criativo ainda estar em andamento. As idéias estão coordenadas,
entretanto a estruturação ainda requer um andamento com ponderação e estudos
criteriosos. Graças a Deus os meus escritos são livres de compromissos, e não
me preocupo por minúcias ou detalhes. Simplesmente escrevo para descrever
momentos, sem a preocupação de compromissos com a posteridade ou transmitir
conhecimentos profundos, inclusive porque não tenho para dar. Isso se torna
mais fácil passar para o papel as descartáveis criações, que pintam em minha
branca cabeça. Entretanto, sei admirar profundamente os escritores coerentes e
filósofos do presente e do passado.
Gostei desse novo conhecimento, pois, em nossa
cidade, dificilmente encontra-se pessoas interessantes intelectualmente. Antes
se conversava das pompas e riquezas. Hoje, crise e violência. Esses papos são
tão pobres como as imaginações dos interlocutores. Minha idade já não dispõe de
paciência para tal sacrifício.
Espero que tenhamos oportunidade de nos encontrar
novamente e, que desta feita, possamos simbiosamente trocar mais figurinhas.
Foi bom que essa fogueira de S. João tenha
acendido uma nova amizade!
Contei esse fato porque pintou em minha mente,
muitas saudades do ano de 2004.
*Escritor, Historiador, Cronista, Poeta e um dos
membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!
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