terça-feira, 2 de novembro de 2021

ADORÁVEL LUDINHA!

 

Antonio Nunes de Souza*

Ludmilla, que nada tinha de russa, era uma menininha do morro que, como a Conceição de Cauby, vivia a sonhar com coisas que o morro não tem. Ganhou esse nome, dado pela mãe, que viu na TV uma linda mulher e, logo acompanhando o modismo, a batizou de Ludmilla Bispo dos Santos. Sobrenomes genuinamente nacionais, quase que atestando sua origem de pai desconhecido!

Desde de pequenina, Celina sua mãe, mulata conhecida nas rodas dos sambas e pagodes, já lhe ensinava a dançar, rebolar e, principalmente, fazer “caras e bocas” para ser mais atrativa e, logicamente, bem safadinha. Obviamente, com essa criação desregrada e livre, cedo já estava mexendo e requebrando nas camas e barracos da sua comunidade. Aliás, infelizmente como é normal, desde treze anos as meninas se tornam mulheres, principalmente as mais “gostozinhas e bonitas”, como era o caso de Ludinha. Sua mãe, ainda fogosa e meia porralouca, pouco ligava para o comportamento da filha. Se via ou sabia, achava normal, ou não ligava deixando a zorra rolar. Esse comportamental nas favelas, não tem nada de sobrenatural ou absurdo!

Ludinha, ganhou corpo de mulher, peito e bunda empinadinha, herdada das suas raízes negras, com o rosto enfeitado com uma dentadura de invejar o teclado de um piano de calda de alto luxo. Com seu sorriso e o jeito meio “sacana” do olhar, ganhava qualquer cara, seja moço ou coroa, pois, a essa altura, sua vida era, simplesmente, fazer vida!

Bem remunerada, além de presentes, convites para fazer companhia em viagens, passeios, fim de semana nas praias e, na verdade, qualquer negócio que rendesse prazeres e grana!

E, como aconteceu com Sua mãe, aos 17 anos engravidou sem saber nem quem era o pai e, com aquela ilusão de ser mãe tão jovem seria maravilhoso, terminou tendo a sua filhinha, que foi batizada com o nome de Sacha, logicamente, Bispo dos Santos, logo apelidada de “Sachinha”, uma vez que pobre coloca nomes exóticos mas, logo em seguida, só tratam eles por apelidos!

Ludinha se refez do parto, nada mudou no seu corpo, continuou a sua vida anterior, como era de se esperar começou a ensinar a Sachinha, dançar, rebolar, sorrir, fazer caras e bocas, etc., seguindo a mesma criação que recebeu!

Hoje Celina sua mãe, já meio coroa vive de lavar roupa de ganho, Ludinha nos Funks, pagodes e sambas nas lajes, ainda jovem com seus trinta anos e, nossa querida Sachinha, com 13 anos começando a debutar nas camas e motéis, seguindo a linhagem profissional da família!

Esse retrato triste existente nas favelas e morros, deve-se a falta governamental de oportunizar as comunidades pobres, levando, principalmente educação!

Até quando teremos que assistir a repetição desse triste e horrível comportamento público e notório?

*Escritor – Historiador -Membro da Academia Grapiúna de Letras – AGRAL – antoniodaagral26@hotmail.com-antoniomanteiga.blogspot.com

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

COMO É DIFÍCIL DIRIGIR NA BAHIA!

 

Antonio Nunes de Souza*

Resolvi passear em Salvador aproveitando um feriadão de quatro dias, imaginando que seria uma maravilha. Mas, mesmo com minha experiência de dirigir em São Paulo, logo na chegada, fiquei totalmente perdido em função da pouca sinalização para os turistas menos avisados!

Comecei a rodar em torno do mesmo lugar, todos buzinando atrás de mim, minha mulher preocupada e eu com receio de uma batida, que por certo, acabaria com meu programado passeio soteropolitano!

Cansado e já um pouco nervoso com a situação, depois de ter guiado o carro por doze horas seguidas, resolvi parar para pedir informações, na certeza que logo encontraria o hotel que reservamos!

-Moço, por favor, me dê uma informação. Acabo de chegar de Sampa e não estou conseguindo encontrar o caminho para o Hotel da Bahia. O senhor poderia me orientar?

-Claro! É facílimo e com a explicação que darei, com certeza o senhor não errara de jeito nenhum!

Com a observação que ele fez, e a maneira enfática de que era “facílimo”, dei um suspiro de alegria, logicamente, com a convicção de que meu problema havia acabado!

-O senhor está na Av. ACM. Seguindo sempre em frente o senhor vai ver o Viaduto Luiz Eduardo Magalhães, mas, não suba. Dobre a direita e vai deparar na Praça Luiz Eduardo Magalhães. Pegue a direita que é a Alameda Luiz Eduardo Magalhães, e preste atenção que o senhor vai passar bem em frente ao Colégio Luiz Eduardo Magalhães e, seguindo em frente, siga a placa de sinalização bem grande no alto, indicando que está indo para o monumento Luiz Eduardo Magalhães. Continue e dobre a esquerda na Biblioteca Luiz Eduardo Magalhães, pegue a Av. ACM Neto sempre pela esquerda até chegar ao Posto de Saúde Luiz Eduardo Magalhães. O senhor se deparará com três vias distintas, mas, não siga a esquerda que o senhor vai dar no Centro de Convenções Luiz Eduardo Magalhães, em frente é a Creche Luiz Eduardo Magalhães, indo pela direita chegará ao Campo Grande onde ACM morou por muitos anos, aí verá o Hotel da Bahia na esquina. Não é fácil?

Nessa altura eu já estava completamente tonto, sem entender merda nenhuma. Minha mulher tremia de raiva, agradeci a grande gentileza do baiano, arranquei o carro em disparada e, na primeira agencia aérea que passei, encostei o carro e entrei já irritadíssimo!

Peguei o celular e liguei para uma transportadora/cegonha combinando para pegar o meu carro e levá-lo para S. Paulo e voltaria imediatamente de avião para casa, cancelando esse complicado passeio!

Dirigi-me a moça da TAM e perguntei qual era o primeiro vôo direto para Sampa?

-Nós temos um para as 18h00min horas e tenho dois lugares ainda. O senhor quer ou prefere ir amanhã cedo?

-Não! Vou hoje mesmo! Tenho ainda quatro horas e é o tempo que a transportadora vem aqui pegar o meu carro!

A moça tirou os bilhetes e me entregou dizendo:

-O embarque é as 18:00 horas. mas, o senhor terá que estar uma hora antes no Aeroporto Luiz Eduardo Magalhães para garantir os seus lugares!

Ao ouvir isso minha mulher desmaiou espumando de raiva. A pobre moça assustada com a cena, olhou pra mim e disse: Pode ficar tranquilo que vou ligar para o Hospital Luiz Eduardo Magalhães e eles vão mandar uma ambulância imediatamente!

Daí pra frente não vi mais nada, pois também desmaiei de desespero, só acordando horas depois no hospital, quando o simpático médico me falou:

-Foi apenas uma indisposição. Seu carro já foi embarcado para S. Paulo, e a companhia aérea mudou suas passagens para segunda-feira, e vocês já podem aproveitar hoje à noite para visitar a Feira do Interior que é uma maravilha!

-Onde fica a feira?

-É lá no Parque de Exposição Luiz Eduardo Magalhães!

Não precisa dizer que desmaiamos outra vez!

OBS: TODOS OS ENDEREÇOS EXISTEM, GRAÇAS AO PAI CORUJA ANTONIO CARLOS MAGALHÃES!                                                           

*Escritor – Historiador -Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL–antoniodaagral26@hotmail.com-antoniomanteida.blogspot.com

 

EXPERIMENTE PARA VER SE É VIDA FÁCIL!

 


Antonio Nunes de Souza*

Aprendi desde menina que mulheres prostitutas eram as “mulheres de vida fácil”. E assim, como era hábito ouvir as opiniões dos mais velhos e experientes, principalmente avós e pais, fiquei com esse conceito gravado em minha cabeça, achando que elas no fundo eram privilegiadas, pois, em casa sempre ouvia meus familiares dizerem: Nossa Mãe de Deus, como essa vida é difícil!

O tempo foi passando, morando numa modesta e pequena cidade do interior, terminei o segundo grau e, como não havia faculdades, meditei um ano e depois resolvi ir para uma cidade grande, enfrentar um trabalho e continuar meus estudos, pois, sempre sonhei em me formar numa escola superior. Com dezenove anos, jovem e bonita, uma qualificação educacional não tão boa, pois, o colégio público não era lá essas coisas, me despedi da família entre choros e abraços, tomei o ônibus levando minha mala com as melhores roupinhas e um dinheiro que toda família arrecadou, para que fosse necessário em pagar um pensionato por quatro meses, tempo que achei que encontraria um emprego, mesmo modesto!

Não precisa dizer que, ao desembarcar na rodoviária do Rio de Janeiro, fiquei ultra assombrada com a loucura de gente, as correrias parecendo um formigueiro gigante. Conforme combinado, uma prima distante estava me esperando, para levar-me até um pensionato modesto que eles haviam acertado. Mesmo sem conhecê-la nos localizamos através de um cartaz, que ela exibia no alto com o meu nome. Peguei a mala e tomamos um ônibus lotado indo para nosso destino. Ela foi embora, me acomodei no meu quarto, tomei um banho no banheiro coletivo do corredor e, deitada comecei a meditar o que seria de mim, numa cidade tão grande e estranha. Terminei dormindo e descansei da longa viagem!

Passados três meses, o dinheiro acabando, distribuí centenas de currículos e nada de surgir algo que valesse a pena ou, pelo menos, desse para as despesas básicas. Nessas caminhadas conheci Marlene que, embora estivesse procurando trabalho fixo, sempre estava arrumadíssima, perfumada e com grana para até almoçar fora!

Curiosa perguntei a ela como conseguia tais façanhas. E ela, sem a menor cerimônia me disse: minha filha eu me viro com alguns homens durante o mês, e consigo grana para todas as minhas despesas, e ainda sobra para curtir um pouco e pagar a faculdade. Chocada, perguntei: você é mulher de vida fácil?  Fácil uma porra, foi o que ela respondeu na bucha! Tenho que enfrentar todos os tipos de homens, uns querem boquetes, outros transar normal, a maioria anal, que cobro mais caro, e uns velhotes com suas rolas murcham, tenho que ficar com os braços doendo para masturba-los e eles demoram uma vida para gozar. Não acho nada fácil isso, mas, nunca chego em meu pequeno AP com menos de cem reais todos os dias. De segunda a sábado, pois, no domingo descanso e arrumo a casa. Você é bonita e se quiser, eu lhe dou uma força indicando-a para alguns fregueses. Em princípio achei até um insulto a proposta, mas, minutos depois, já puta da vida pelo que estava acontecendo, e não querendo voltar para o interior, comecei a perguntar detalhes por curiosidade para ver se me adaptaria a tal situação! Sinceramente, da maneira alegre e tranquila que ela falava, passei a achar até agradável e lucrativo esse trabalho, ainda mais que ela dizia sorrindo: “minha filha, essa merda você lavou está nova de novo”. Pode até doer um pouco, principalmente na bunda, mas, muitas vezes você goza também e ainda leva sua grana tranquila!

Acertamos para eu começar no dia seguinte e ela me arranjou um cliente dos bons, educado e generoso que, sabendo da minha condição de virgem e iniciante, me deu uma série de aulas, foi delicado ao penetrar e, depois de tudo, me deu trezentos reais, que dava para pagar uma quinzena do pensionato. Dei tantos beijos na despedida, que ele até ficou desconfiado. Claro que fui correndo falar com minha amiga, com a maior alegria estampada no rosto, agradecer a dica e pedir para me arranjar outro cliente!

Hoje, passados quinze anos, estou formada em arquitetura, tenho meu apartamento próprio, duas salas amplas onde funciona meu escritório de projetos e decorações interiores, carro último ano e tenho a maior respeitabilidade em Campinas-SP, para onde me mudei, após a formatura, para esquecer e apagar as imagens do passado, começando uma nova vida. Mas, embora tenha me ajudado muito a realizar os meus sonhos, tive muitos pesadelos, pois, não foi fácil ter que nesse período engolir muitos espermatozoides, receber centenas de rolas na frente e atrás e ainda me deparar muitas vezes com caras mal-educados, que me olhavam e tratavam com o maior desprezo!

Se alguém acha que isso é vida fácil, vá experimentar! Eu fui uma das poucas que deu sorte, pois, a maioria, acabam suas vidas em prostíbulos e sofre com DSTs, principalmente a AIDS!

*Escritor – Historiador -Membro da Academia Grapiúna de Letras – AGRAL -antoniodaagral26@hotmail.com-antoniomanteiga.blogspot.com