domingo, 25 de janeiro de 2026

RECAÍDA DO FOLIÃO! (Clique e leia)

 

Antonio Nunes de Souza*

-Oi moral! Fecha a conta e traga a saideira!

-Só tem agora cerveja sem álcool. Sabe como é, fim de noite... não sobrou nada!

-Traga assim mesmo e mande um copo de pinga que eu tempero aqui!

-Falou Brother!

Enquanto o improvisado garçom da barraca foi buscar a bebida, mesmo cheio do pau e mamado, comecei a pensar o que diria em casa, depois de ter saído no sábado para comprar pão, e chegar na quarta-feira, chapado, com olheiras e sem o pacote de pão, que esqueci no primeiro bar que parei. Precisava arranjar uma desculpa que convencesse a patroa, e não estragasse nosso casamento de cinco anos.

-Pronto aqui, gente boa! Geladinha como cu de foca. Falou o garçom dando uma risadinha, não sabendo o drama que se passava em minha cabeça.

Depois da mistura, tomei de uma só talagada o resto da pinga, pensando em colocar o juízo no lugar, para me dar inspiração para enfrentar um barraco, que somente Marlene sabia armar!

A bem da verdade, ela sabia que eu gostava de carnaval e, sendo evangélica, durante os anos de casado eu segurei a barra, ficando em casa e prometi que deixaria em definitivo a folia momesca. Mas, esse ano. Pó! Esse ano foi foda e não consegui me controlar.

Até que não foi nada programado, saí tranquilamente e, por azar dela, passou um trio bem na porta da padaria, tocando: Atrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu... Sacanagem, mas parecia que os caras estavam gozando com minha cara. Não aguentei a zorra e disse: Traz uma cerveja bem gelada!

E a loura gelada foi o ponta pé inicial. Depois de mais 3 ou 4, deixei o pacote de pão no balcão, e saí batido para o meio da folia. Por sorte estava de bermuda e camiseta, traje bastante adequado para encarar a esfregação no meio da multidão. Fim de mês tinha recebido o salário no dia anterior, cheque e cartão no bolso, não faltava mais nada para eu me dar bem. Mulher tem para escolher, basta chamar para beber alguma coisa que elas vêm doidinhas, pois, saem limpa exatamente a procura de um otário para banca-las. Eu não me incomodo de bancar, mas, dou o líquido e quero a carne depois. Também não tem problema não, elas estão dando até sem você pedir. Tão tudo doidas e esqueceram os pudores.

Paguei a conta e fui para o hotelzinho que fiquei durante os 3 dias e, chegando no quarto, tirei um cochilo e acordei de estalo com uma idéia genial na cabeça: Vou fazer uma carta para Marlene e tenho certeza que, com sua crença, ela acreditará piamente, pois, embora barraqueira entre quatro paredes, ela é super discreta e nunca comenta nada da nossa vida com ninguém. E com a média que tenho, vou me safar numa boa.

Pedi uma caneta e folhas de papel ao recepcionista e comecei a escrever:

Querida Marlene,

Ninguém mais do que você sabe como somos sujeitos as tentações demoníacas. E foi o que aconteceu comigo!

Estava na padaria comprando pão para o nosso café, quando apareceu um sujeito com uma aparência estranha, usando cavanhaque, cara triangular, os dentes caninos pronunciados e me convidou para beber um copo de cerveja. Ele foi tão gentil que não pude recusar, embora o achando uma pessoa esquisita. E, conversa vai, conversa vem, ele sempre enchendo o meu copo e eu distraído bebendo, até que ele me chamou para olhar de perto o carnaval. E eu, parecendo que estava enfeitiçado, terminei seguindo-o, bebendo, brincando, dançando e me envolvi durante esses 4 dias, e somente agora que acordei aqui nesse hotel, sozinho e sem saber nem o que fiz durante esses dias.

Peço-lhe que me perdoe, pois foi obra do demônio, fazer eu cometer tamanha loucura com você, que é a mulher que amo no fundo do coração.

Peço-lhe que leia essa carta de um homem arrependido, reflita com calma e mande uma resposta, dizendo que compreende que Satanás procura os bons para fazer seus estragos.

O endereço do hotel é Av. das Nações, 123, e estou no quarto 56. Seja rápida, pois estou louco para lhe ver!

Um beijo com amor,

                       Juvenal

Pedi ao porteiro do hotel para levar a cartinha e fui dormir esperando a resposta, pois, a depender do resultado, já que ela é muito crente em Deus, me sairia muito bem.

-Seu Juvenal, seu Juvenal! Acordei com as batidas no quarto e o porteiro gritando meu nome. Olhei para o relógio e já tinha se passado 4 horas que eu estava dormindo.

Levantei, abri a porta e o porteiro me entregou uma carta dizendo: Ela não estava em casa, mas a empregada disse que ela tinha telefonado dizendo onde estava e eu fui lá levar e esperei ela escrever a resposta.  Agradeci, fechei a porta e me sentei para ler:

Juvenal meu grande amor,

Como estou feliz por você ter aparecido vivo e com saúde. E como imagino o seu sofrimento agora, por ter sido envolvido pelas maldades do Satanás. Por mais que estejamos apegados a Deus, o tinhoso sempre entra em nossas vidas para nos levar ao pecado.

Imagine você que, assim que você não voltou para casa até as 22:00 hs., resolvi ir procura-lo imaginando que poderia ter acontecido um acidente. E, no meio da multidão, encontrei um homem também estranho que logo se prontificou a ajudar-me a procura-lo. Eu estava muito nervosa e terminei aceitando tomar um capeta que ele ofereceu. Imagine meu amor, logo essa bebida ele foi me dar. Mas, do jeito que estava, nem ligava para nada, pois o importante era encontrar você. Naquele empurra empurra, ele colocou os braços em volta da minha cintura para me equilibrar e, a cada barraca, parava para comprar mais dois capetas para nós. Não sei o que deu em mim, mas, os 4 dias passaram que eu nem percebi, já que não lhe encontrava e, a cada dia, nós levantávamos e íamos para a avenida a sua procura, pedindo a Deus que você estivesse vivo. Ele me dominava de tal forma como se fosse um hipnotismo, que eu não tinha forças para recusar nada que ele queria. E ele sempre prometia que ia encontra-lo. E por você, do jeito que lhe amo, sou capaz de tudo.

O fato é que ele me enfeitiçou durante o carnaval e agora eu acordei sozinha no apartamento 11 do Motel Smile. Ele sumiu e me deixou aqui a pé e nem pagou a conta das refeições e os dias que aqui ficamos. Posso jurar por Deus que era o demônio! Somente ele me faria ceder as suas tentações. Ainda mais que deixou um grande cheiro de enxofre em minhas roupas e em meu corpo, que é o seu odor característico. Meu amor, nós fomos vítimas do Tinhoso! Vamos tomar isso como uma provação divina!

Venha me buscar urgente e traga dinheiro para pagar a conta e, quando chegarmos em casa, tomaremos banho e iremos até a igreja pedir ao pastor para exorcizar esse Satanás, que tomou conta de nossos corpos.

Com o maior amor do mundo, sua querida,

                                               Marlene

Acabei de ler tremendo e fiquei puto da vida. Mas, que merda eu poderia dizer? Vou buscar aquela desgraçada, meter a língua no rabo, e nunca mais inventar mentiras colocando o diabo no meio. Só queria era saber, quem foi esse filho da puta, que se passou pelo Satanás pra comer minha mulher?

*Escritor, Historiador, Cronista, Poeta e um dos membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!    

                                  

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