Antonio Nunes de Souza*
Estou a procura do cretino, que
cinicamente ou por gozação, apelidou a velhice de “melhor idade”. Tenho certeza
que esse cara era jovem ou um velhinho sarcástico, que por diversão, apelidou a
nossa fase final, os sofrimentos normais e constantes em função do tempo, como
“melhor idade!”
Minha revolta é lógica e justa,
pois, cheguei a essa terrível idade e, infelizmente, não estou vendo ou
sentindo nada disso, ou alguma coisa que eu possa caracterizar de melhor.
Inclusive posso enumerar as merdas que estão me acontecendo, deixando-me
literalmente puto da vida, pois, há muito tempo ouço essa titularidade, que
idiotamente até torcia para ficar velho, para poder desfrutar dessa tão
decantada delícia.
No passado eu curtia meu carro
desfilando nas avenidas, trabalhando, paquerando e divertindo-me ao deslocar
para onde desejava. E agora mermão, meu carro é um semelhante aos de
supermercado, que chamam de andador. Eu saio como um idiota dirigindo pelos
corredores do apartamento, sempre me batendo nos móveis, e com o maior cuidado
para não tropeçar, cair e quebrar a bacia, que é o que velho quebra logo quando
se esborracha.
Para tomar banho requer um
cuidado fdp para não escorregar, e se o sabonete cair arriscar apanha-lo é uma
aventura radical, com o cu no ponto com medo de cair de cara no chão. Fora o
perigo de dar um infarto do miocárdio, que no banheiro é o lugar ideal que
velho adora sentir tal tragédia.
Meu amigo as pernas ficam tão
fracas, que para você até se levantar do vaso sanitário faz uma puta ginástica,
mesmo colocando um assento especial de alguns centímetros de altura. Você se
senta para cagar e se caga para levantar, um verdadeiro sofrimento!
Para urinar é a maior novela, No
passado tirava o membro orgulhosamente, dava maravilhosos esguichos, sacodia a
arma e saía tranquilo. Hoje há, há, há é o maior vexame, você tem vontade e se
sair correndo para ir ao vaso, está passivo de cair, e se for devagar o mijo
vai pingando na cueca. Como solução substituindo o antigo penico, inventaram
umas garrafas plásticas com a boca avantajada, que podemos urinar onde
estivermos. Mas, se tem visitas no momento, você passa pelo maior sufoco, tendo
a opção de usar fraldões como precaução. Bastante humilhante meu amigo!
Ter uma visão da cidade é
literalmente foda. Só tenho essa chance quando vou ao médico durante o percurso.
Eu tenho até sorte, pois, da minha ampla varanda do apartamento, me divirto
contando os carros que passam e olhando as pessoas caminhando normalmente,
dando-me uma puta inveja.
Controlar os remédios e os
horários para toma-los é a maior complicação, precisando muita atenção para
poder fazer uso adequadamente.
Quanto as visitas e os amigos
virtuais (com a idade você passa a não ter presenciais. Eles esquecem que você
ainda existe), tenho que responder se estou me alimentando, se faço exercício,
se estou melhor, se eu já fui a doutor fulano que é muito bom, fora os iludidos
da vida, que bobamente me dizem: Já deu certo, Ele está no comando. Eu rio por
dentro, e por uma questão de respeito digo amém.
Não vou nem falar de sexo, porque
esse assunto, infelizmente é nada estimulador, nos sentimos completamente
aposentados de tal façanha!
Finalizo acrescentando mais duas
coisas: Primeiro que me sinto como uma criança: meio careca, dependente e
fazendo xixi nas calças. E segundo, por todas essas coisas que convivo, tive
que contratar uma “cuidadora de idosos” sem qualificações para tanto, que me
trata como se eu fosse um velhinho idiota!
Ainda tem muitas outras coisas,
mas, creio que somente essas são bastante para justificar, que essa
titularidade de “melhor idade” é a maior balela que um cretino gozador inventou.
Mas, para quem já está beirando 85 anos, tiro essa merda toda de boa, sorrindo
e feliz, já que não tenho outra opção!
*Escritor, Historiador, Cronista,
Poeta e um dos membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!
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