sábado, 21 de março de 2026

QUEM FOI QUE DISSE QUE É A MELHOR IDADE? (Clique e leia)

 

Antonio Nunes de Souza*

Estou a procura do cretino, que cinicamente ou por gozação, apelidou a velhice de “melhor idade”. Tenho certeza que esse cara era jovem ou um velhinho sarcástico, que por diversão, apelidou a nossa fase final, os sofrimentos normais e constantes em função do tempo, como “melhor idade!”

Minha revolta é lógica e justa, pois, cheguei a essa terrível idade e, infelizmente, não estou vendo ou sentindo nada disso, ou alguma coisa que eu possa caracterizar de melhor. Inclusive posso enumerar as merdas que estão me acontecendo, deixando-me literalmente puto da vida, pois, há muito tempo ouço essa titularidade, que idiotamente até torcia para ficar velho, para poder desfrutar dessa tão decantada delícia.

No passado eu curtia meu carro desfilando nas avenidas, trabalhando, paquerando e divertindo-me ao deslocar para onde desejava. E agora mermão, meu carro é um semelhante aos de supermercado, que chamam de andador. Eu saio como um idiota dirigindo pelos corredores do apartamento, sempre me batendo nos móveis, e com o maior cuidado para não tropeçar, cair e quebrar a bacia, que é o que velho quebra logo quando se esborracha.

Para tomar banho requer um cuidado fdp para não escorregar, e se o sabonete cair arriscar apanha-lo é uma aventura radical, com o cu no ponto com medo de cair de cara no chão. Fora o perigo de dar um infarto do miocárdio, que no banheiro é o lugar ideal que velho adora sentir tal tragédia.

Meu amigo as pernas ficam tão fracas, que para você até se levantar do vaso sanitário faz uma puta ginástica, mesmo colocando um assento especial de alguns centímetros de altura. Você se senta para cagar e se caga para levantar, um verdadeiro sofrimento!

Para urinar é a maior novela, No passado tirava o membro orgulhosamente, dava maravilhosos esguichos, sacodia a arma e saía tranquilo. Hoje há, há, há é o maior vexame, você tem vontade e se sair correndo para ir ao vaso, está passivo de cair, e se for devagar o mijo vai pingando na cueca. Como solução substituindo o antigo penico, inventaram umas garrafas plásticas com a boca avantajada, que podemos urinar onde estivermos. Mas, se tem visitas no momento, você passa pelo maior sufoco, tendo a opção de usar fraldões como precaução. Bastante humilhante meu amigo!

Ter uma visão da cidade é literalmente foda. Só tenho essa chance quando vou ao médico durante o percurso. Eu tenho até sorte, pois, da minha ampla varanda do apartamento, me divirto contando os carros que passam e olhando as pessoas caminhando normalmente, dando-me uma puta inveja.

Controlar os remédios e os horários para toma-los é a maior complicação, precisando muita atenção para poder fazer uso adequadamente.

Quanto as visitas e os amigos virtuais (com a idade você passa a não ter presenciais. Eles esquecem que você ainda existe), tenho que responder se estou me alimentando, se faço exercício, se estou melhor, se eu já fui a doutor fulano que é muito bom, fora os iludidos da vida, que bobamente me dizem: Já deu certo, Ele está no comando. Eu rio por dentro, e por uma questão de respeito digo amém.

Não vou nem falar de sexo, porque esse assunto, infelizmente é nada estimulador, nos sentimos completamente aposentados de tal façanha!

Finalizo acrescentando mais duas coisas: Primeiro que me sinto como uma criança: meio careca, dependente e fazendo xixi nas calças. E segundo, por todas essas coisas que convivo, tive que contratar uma “cuidadora de idosos” sem qualificações para tanto, que me trata como se eu fosse um velhinho idiota!

Ainda tem muitas outras coisas, mas, creio que somente essas são bastante para justificar, que essa titularidade de “melhor idade” é a maior balela que um cretino gozador inventou. Mas, para quem já está beirando 85 anos, tiro essa merda toda de boa, sorrindo e feliz, já que não tenho outra opção!

*Escritor, Historiador, Cronista, Poeta e um dos membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!

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