Antonio Nunes de Souza*
Somente quem nasce nas periferias
suburbanas das comunidades, sendo filha de mãe solteira faxineira e lavadeira e
avó nas mesmas condições de trabalho, pode avaliar como é sofrida a vida debaixo
de preconceitos, e tudo sendo difícil de se conseguir. Esse é exatamente o meu
pobre perfil. Mas, pelos esforços da minha mãe e minha avó, nada me faltou do
essencial, inclusive minha frequência escolar, que para mim, além da cobrança
familiar, eu adorava por ser o lugar onde me divertia, brincava e,
principalmente, aprendia. Saídas, festas, eventos, etc., para mim não existiam,
e isso fazia com que eu me divertisse sempre lendo e estudando,
transformando-me numa aluna exemplar e invejável durante o primário e
secundário. No bairro me achavam uma “pobre metida a besta”, mas, sinceramente
eu era pelo isolamento que vivia, porém, assim procedia não só pelo controle
familiar, como através dos meus modestos estudos, cheguei a lógica e concreta conclusão,
que o meu futuro não pertence a divindade nenhuma. Ele pertence, literalmente,
a mim mesmo, que com esforços, estudos, coragem de lutar pelos meus planos,
projetos e sonhos, com certeza absoluta, me realizaria e teria um futuro promissor
e bem melhor!
Aos vinte e três anos, batalhando
muito, consegui me formar em Assistente Social. Não houve festa familiar,
apenas a solenidade na faculdade, eu, minha mãe e minha avó sorridentes e
felizes pela conquista superior da nossa pobre família!
Até essa data eu nunca trabalhava
em nada, a não ser nas tarefas domésticas e a dedicação aos estudos. Mas, a
partir da minha formatura, logicamente tinha de começar a minha vida dentro da
profissão escolhida, principalmente para ajudar nas despesas da casa, como
também para minhas necessidades. Passados três dias, preparei alguns currículos,
comprei um jornal especializado em vagas de empregos, e imediatamente enviei
pela Net que é usual já há algum tempo, e cheia de expectativa, fiquei
aguardando algum resultado.
Passados cinco dias, recebi a
mensagem de uma empresa de recursos humanos, convidando-me para uma entrevista.
Pulei de alegria e felicidade, vendo que os frutos das minhas sementes estavam
tendo resultados. E no dia e horário marcado, vesti minha melhor roupa,
bastante discreta como sempre procedi, e segui muito nervosa, porém confiante
nas minhas habilidades e conhecimentos. Depois de alguns minutos, levaram-me a
uma sala, onde fui recebida por uma jovem senhora, sentei-me em sua frente, com
as mãos suadas pelo nervosismo, fazendo com que ela pela experiência, dizer-me
que ficasse tranquila, que é uma entrevista de rotina, e quanto mais calma
melhor a pessoa se sobressai.
Durante a conversa fiquei sabendo
que se tratava de um vaga de relações públicas no Crematório de uma grande
Agência Funerária do Rio de Janeiro, recebendo familiares, palavras de
conforto, acomodações e outros detalhes como protocolar as cinzas dos cremados,
para serem entregues as famílias, que normalmente guardam ou jogam no mar.
Tomei um bruto susto, mas, quem quer trabalhar e precisa, não escolhe demais, e
o importante é pagar para ver, e depois ficar de for tudo bem ótimo, e se for
ao contrário tomar outro rumo!
O fato é que graças a minha
formação, que era uma exigência da empresa, além de ser meu primeiro emprego,
sendo uma pessoas sem vícios de outras atividades, fui aprovada. Isso foi numa
sexta feira e ficou marcado já para na segunda feira eu me apresentar para
passar o dia recebendo um cursinho sobre as coordenadas do serviço. No dia
certo me apresentei, o professor ou instrutor era um senhor simpático e
sorridente, que me deixou a vontade, pegando rapidamente o que me era
transmitido. No final do dia, fizemos um teste, sendo ele um familiar da pessoa
falecida e eu a recepcionista e relações públicas. Segundo ele eu me saí ótima.
Dando-me ele um atestado de OK, que eu deveria entregar ao diretor, assim que
chegasse e me apresentasse para trabalhar. Além disso levaria também uma
aprovação da empresa de recursos humanos.
Voltei para casa na maior
euforia, doida para falar com minha família a grande novidade, e que começaria
com o salário inicial de R$ 3.500,00. Até aí estava tudo bem, somente a
estranheza de ter que trabalhar numa empresa fúnebre me deixava tímida. Mas,
nem tudo é como nós queremos!
O fato é que comecei a trabalhar,
me identifiquei tanto, que com um mês eu já tirava de letra o trabalho, e era
sempre elogiada pelas famílias e o meu patrão, que pouco aparecia lá, mas,
acompanhava mesmo a distância tudo que acontecia.
Depois de um ano, um dia
aconteceu a morte acidental de uma senhora da alta sociedade. Embora só os
amigos próximos participavam da cremação, era bastante gente, e seu filho
único, um jovem de uns 30 anos, chorava copiosamente, em função da perda de sua
genitora, que já era viúva, em função de um outro acidente. Tive que leva-lo
para uma das salas especiais para esses casos, acionei assistência médica da
empresa, sendo ele medicado e sedado, dado seu estado desesperador de
sentimentalismo. Bem depois da cremação, ele acordou meio sonolento, o
motorista da família o levou para casa, ele agradeceu minhas atenções para com
ele e os convidados, dizendo-me que no dia seguinte voltaria para pegar as
cinzas da sua querida mãe!
Eu cataloguei e guardei, bastante
sentida, ao ver como era importante para ele a perda da sua genitora, assim
como era e é a minha, fazendo com que eu pensasse numa mesma possibilidade,
Bati na madeira 3 vezes!
Aconteceu que no dia seguinte ele
não apareceu, outros dias foram passando, completou o prazo de responsabilidade
de guardar da empresa, que é de um mês, mas, curiosamente, em vez de enviar ao
departamento de descartes, guardei em meu armário, imaginando que algo possa
ter acontecido para que ele não aparecesse!
E realmente aconteceu. Sendo a
sua mãe proprietária de vários imóveis, uma grande loja de artigos femininos,
ele embora sendo arquiteto e filho único, teve que ficar à frente do
inventário, acompanhar o funcionamento da loja, além de outros problemas inerentes
a sua profissão e ao falecimento prematuro da sua querida genitora!
Depois das explicações ele me
agradeceu bastante por ter guardado as cinzas e inesperadamente, convidou-me
para almoçar, como se fosse uma gratidão pelas minhas atenções durante o
cerimonial. Falei que era o meu serviço, que não se fazia necessário, mas, pela
gentil insistência resolvi aceitar. Durante a refeição conversamos sobre nossas
vidas, falei claramente minha origem familiar, o fato é que nos identificamos
muito, e depois de outros convites, passamos a namorar, não demorando 3 meses
ele convidou a mim. minha mãe e minha avó para ir morar na mansão que morava
sua mãe. Porém, por precaução achei conveniente dizer não, pois, poderia ser um
entusiasmo passageiro, e nos deixar em maus lenções no futuro. Mas, realmente
ele estava me amando, assim como eu a ele e com mais alguns meses marcamos
nosso casamento, que foi suntuoso e maravilhoso como um conto de fadas,
sentindo-me uma verdadeira Cinderela!
Aí mudamos todos para a tal
mansão, eu deixei meu emprego na Funerário e passei a tomar cursos com
profissionais da moda, para ser diretora de departamentos feminino e ele deixou
a arquitetura, passando-se a dedicar-se a grande loja e a administração da parte
imobiliária. Isso já fazem 3 anos, estamos todos felizes, entramos na parte de roupas
masculinas, ampliando nossa grade comercial. Pelo nosso desejo, ainda não temos
filhos, mas, com certeza em breve isso acontecerá.
Quis externar para vocês a razão
de através da morte ter encontrado a vida. Tenho certeza que muitas pessoas,
por ter concluído o curso universitário, teria recusado a proposta da
Funerária, achando ser algo desprezível!
O grande mestre Rui Barbosa
sempre dizia: “Só existe uma classe de pessoa que não vencem. Aquelas que nada
tentam e nada produzem!”
*Escritor, Historiador, Cronista,
Poeta e um dos membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!
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