Antonio Nunes de Souza*
Tive o privilégio de ter nascido
no mesmo bairro que Samara, que com o passar dos anos, tornou-se uma mulher
linda, sensual, charmosa, e possuidora de uns trejeitos naturais, que eram
bastantes provocantes para um homem, por mais tranquilo que fosse. De família
pobres, porém, mesmo com suas vestes simples, deixava transparecer tudo isso
que descrevi!
Não posso deixar de dizer, que
por ironia do destino, fiquei apaixonado por ela desde meus quatorze anos, eu
mais velho que ela dois anos, mas, mesmo aos doze, ela já despontava uma beleza
de moça ou mesmo mulher. Podia-se dizer que Samara era uma pessoa especial, que
ganhava todos os concursos de beleza infantis e juvenis que participava, no
nosso bairro de classe modesta!
Quando ela completou quinze anos,
fizemos um pagode maravilhoso na laje da sua casa, levado a danças e um
delicioso churrasco, eu dancei muito com ela, e aproveitei para me declarar
apaixonado, desejando que ela passasse a ser minha namorada. Mas, para minha
decepção, ela recusou-me de uma maneira nada gentil, deixando-me desiludido e
chateado, pois, esperava outro resultado.
Dai pra frente o tempo foi
passando, e esse amor passou a ser mais uma obsessão, sempre eu desejava estar
perto dela, frequentar os lugares onde ela ia e esperar para vê-la na frente da
faculdade, ficava irritado e nervoso quando a via abraçada com algum rapaz,
namorado ou amigo, fazendo com que eu perdesse completamente a lucidez,
transformando todo amor que imaginava ter, em um verdadeiro ódio, por ser
desprezado, mesmo em outras investidas que tive oportunidade de fazer sem o
mínimo sucesso!
O fato é que cheguei as raias da
loucura, passando a ter o maior desprezo por Samara, imaginando que ela me
ridicularizava não aceitando meu amor. E despois dessa ideia absurda, o desejo
de ódio e vingança aflorou em minha mente transtornada, chegando a pensar
absurdamente em elimina-la, já que não queria fazer minha felicidade, também
não teria oportunidade de desfrutar a dela!
Como estava completamente tomado
por essa ideia pavorosa, uma noite, exatamente no dia do seu aniversário de
vinte e um anos, estupidamente bebi alguns drinques, e quando estava meio alto,
dirigi-me para o local da festa, entrei e, num gesto intempestivo de loucura,
peguei uma faca que estava encima de uma mesa, e sem dizer uma palavra, deferi
uma série de golpes em Samara, que espantada caía no chão esvaindo-se em sangue.
Me pegaram, tomaram a faca, alguns me deram chutes e socos querendo me linchar,
enquanto outros cuidavam de levar Samara a um hospital, que infelizmente já
chegou sem vida!
Eu fui acordar uma hora depois, algemado
já na delegacia, o corpo dolorido pelas pancadas, algumas escoriações, vindo a minha
mente a loucura que tinha feito, estragando completamente minha vida, e ao
mesmo tempo, transformando-me num brutal assassino!
Repassei esse triste fato em
minha mente, pois, hoje estou na prisão, cumprindo uma pena de vinte e oito
anos e sete meses em regime fechado, pagando pelo meu grotesco feminicídio.
Estou super arrependido do imperdoável crime que cometi, mas, nada justifica o
meu desprezível ato, nem meu arrependimento trará a vida de Samara!
São coisas dessa Vida Louca que
vivenciamos!
*Escritor, Historiador, Cronista,
Poeta e um dos membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!
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