Antonio Nunes de Souza*
Domingo, dia de descanso, acordei
as 8 horas ainda um pouco cansada do evento na noite anterior, mas, ao olhar pela
janela a maravilhosa vista de Copacabana, vi o mar lindo e azul, banhando a
branca praia recheada de banhistas, demonstrando um gostoso convite para um
mergulho revitalizador. Isso boliu com meus brios, dando-me uma vontade louca
de obedecer meus instintos. Como sou
obediente as minhas vontades e desejos, prontamente me alimentei com uns ovos
com bacon, um suco de laranja e, tranquilamente, fui colocar meu biquini e a
sacola com os apetrechos complementares.
Meu marido, graças a Deus, dormia tranquilamente, já que como sempre,
tinha se excedido nas bebidas com os amigos, durante o evento, e eu sempre
pagava o pato.
Desci do oitavo andar do nosso
chiquérrimo condomínio, peguei o carro na garagem e, de boa e alegre, segui
sozinha para desfrutar um pouco de liberdade e prazer. Seguindo meu caminho
para o posto seis, quando aconteceu um acidente e o trânsito ficou parado,
enquanto aguardavam a chegada da polícia e socorros, para assistir os feridos e
fazerem a retirada nos veículos envolvidos. E pela demora, veio em minha mente
a trágica situação do meu relacionamento totalmente abusivo, pois, meu marido
Fernando tinha uma índole violenta, já tinha me agredido várias vezes,
deixando-me cheias de hematomas, e nunca se desculpava depois, já que achava
que sempre tinha razão de ter se comportado de forma grosseira e perversa. Ele
era riquíssimo, mas, dessas pessoas ignorantes, que por sorte e muitos trabalhos
(sujos e limpos) conseguem enricar e ter uma situação invejável. E eu venho de
família pobre, e passei depois de casada a ter uma vida de rainha, nunca dei
queixa contra ele, sofro calada até para meus familiares, pois, tinha medo dele
com seus advogados, me deixarem na rua da amargura, ou ele pelo seu instinto
perverso, mandar me matar ou ele mesmo fazer, como procedem os homens
violentos. Quando o trânsito foi liberado, resolvi esquecer esse triste fato,
pensar apenas no meu gostoso banho de mar.
Cheguei, estacionei numa ótima
vaga, peguei minha sacola e me dirigi para uma barraca bem alinhada, aluguei
uma cadeira confortável, um enorme sombreiro, acomodando-me num lugar
privilegiado, já que sempre que chego dou logo uma boa gratificação ao garçom,
para que ele passe a me tratar com maior atenção, inclusive fiscalize os meus
pertences.
Dei meus mergulhos, tomei alguns
minutos de sol, bebi umas duas latinhas de cerveja, comi uns petiscos, admirei
as pessoas com seus biquinis micros e shorts que mostram mais que demais,
sentindo-me alegre e feliz, principalmente por não ter Fernando ao meu lado, já
que além de bruto é bastante ciumento, que não posso nem olhar para o lado.
Aconteceu que as 12.30, uma amiga
moradora do condomínio me telefonou, avisando-me que estava havendo um incêndio
no andar abaixo do meu, e que o fogo tinha passado para nosso, que eu fosse
rápido, que os bombeiros estão chegando para socorrer as pessoas atingidas.
Tomei um bruto susto, paguei a conta e corri imediatamente para o carro e,
mesmo nervosa, acelerei bastante para chegar a tempo para tomar algumas
providencias, já que Fernando estava escornado dormindo e, provavelmente, deve
estar no apartamento. Ao chegar, o edifício estava interditado, o fogo já tinha
alcançado nosso apartamento, os bombeiros com a escada Magirus tentavam apagar
as chamas bastante altas e, ao mesmo tempo, ver se tinha alguém para ser
retirado.
Eu estava super apavorada, e
fiquei em estado de choque, quando fui comunicada que Fernando tinha sido
encontrado morto, sem queimaduras, mas, devido a inalação da fumaça que
desprendia volumosamente.
Na verdade, foi uma brutal
tragédia, que quando passaram os tristes problemas de enterro e minha mudança
para outro apartamento nosso no mesmo edifício, tudo providenciado pelo
departamento jurídico da empresa de Fernando, inclusive vim a saber que
receberia um seguro de um milhão de reais feito por meu marido, assim como,
herdeira integral de todos os imóveis e a empresa de materiais para construção.
Ou seja: Me livrei de um miserável que me maltratava estupidamente, ainda
fiquei rica e livre para viver a minha vida, agora com bastante experiência
para poder escolher melhor e com cuidado, meu próximo relacionamento.
Sem estar sendo cruel, posso
dizer que tive a maior sorte com o que ocorreu, pois, livrei-me de passar uma
vida sofredora, fiquei numa condição privilegiada, podendo dizer que foi,
estritamente, muita sorte, que não foi nada de milagre!
O povo sempre diz que: “Depois da
tempestade vem a bonança!” Eu, muito feliz, digo diferente: “Depois das
labaredas veio a herança!”
*Escritor, Historiador, Cronista,
Poeta e um dos membros fundadores da Academia Grapiúna de Letras!
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