Antonio Nunes de Souza*
Morador
de cidade praiana, ainda começando a ser descoberta pelos turistas, desde
menino vivi pelas areias, catando “papa-fumos, mapés, sururus, ostras, etc.”,
não só para ganhar uns trocados vendendo para a vizinhança, como também para as
modestas pousadas, e claro para a alimentação de nossa casa!
Sou
negro, hoje tenho vinte e dois anos, porém forte e atlético com uma altura
acima do normal, praticamente um bonito exemplar da raça africana e com a
coloração do constante sol, minha pele tem um bronzeado de dar inveja a muita
gente, Com todos esses detalhes, tornei-me um charmoso nativo!
Atualmente
estou vendendo cangas coloridas, óculos, óleo para bronzear e alguns colares de
conchas e sementes coloridas. Essa é a minha profissão e trabalho. Entretanto,
nunca deixei de estudar, ler alguns livros deixados pelos turistas e na
biblioteca da escola, resultando eu me tornar um cara educado, curso
secundário, simpático e bom papo, Meu sorriso super branco, parece um teclado
de piano de caldas, e as duas covinhas que se formam em minhas bochechas, me dão
um toque irresistível. Graças esse aparato masculino, consegui transar com quase
todas as meninas da cidade, e logicamente com uma corrente enorme de turistas,
que veem passear sem seus respectivos namorados ou maridos.
Me
considero um cara feliz, cheio de liberdades, e ainda moro com meus pais. Minha
mãe é lavadeira e meu pai um pescador beirando a aposentadoria.
Aí
foi ocorreu o que eu menos esperava. Apareceu uma turista americana, mulher de
seus 35 anos, mas, ainda cheia de vida e beleza, que pela morte de seus pais em
acidente aéreo, resolveu vir passar um mês no Brasil, e por ironia do destino,
a empresa de turismo indicou a nossa cidade, observando que não havia alto
luxo, porém as praias eram maravilhosas, águas mornas e serenas, além das melhores
iguarias de frutos mar!
Como
era tranquilidade que ela queria, nosso lugarejo seria o ideal, pois somos
somente vinte e cinco mil habitantes oferecendo beleza, serenidade e segurança.
Conheci
Joanne Truder Smith na pousada, quando fui visitar alguém que havia conhecido
na praia. Ela vendo meu estandarte cheio de quinquilharias, pediu para que eu
explicasse as utilidades, e mostrasse as cangas e as camisas com frases
alusivas a cidade. Mandou-me sentar na varanda, e sem falar português começamos
a dialogar por gestos e as vezes, tendo a colaboração da funcionária do hotel,
que era “meia bilíngue!” Ela comprou uma série de coisas, dizendo que seriam
lembranças para amigos, e com a maior simpatia e educação, me convidou para
jantar. Eu, como sou tranquilo e seguro, aceitei, dizendo que ia em casa deixar
minhas mercadorias de trabalho, tomar um banho e voltaria. Assim combinamos as
vinte e trinta nos encontrar.
Foi
um jantar agradável, trocamos ensinamentos de inglês e português, nos
entendemos maravilhosamente, ficando até meia noite tomando um bom vinho.
Quando chegou a hora da despedida ela me abraçou, e com a maior tranquilidade,
me deu um beijo na boca, que não foi nada técnico. Meteu a linguona americana
sem fazer cerimônia. Quase que eu já ia aprender inglês por osmose!
Depois
de abrir um lindo sorriso, me deu boa noite e que me veria na praia pela manhã.
Saí calmamente e feliz, pois, inesperadamente, aconteceu eu conhecer uma mulher
legal, bonita, e pelas suas vestes e semblante, deixava transparecer ser
bastante rica e independente!
Para
simplificar, ficamos namorando durante toda sua estadia, ela gentilmente
comprou todo meu estoque de mercadoria para que eu ficasse completamente livre,
afim curtirmos aqueles dias maravilhosamente, sem que nada nos impedisse.
Antes
de chegar a data da partida, ela praticamente exigiu que eu fosse com ela para
Los Angeles, e lá ficaria trabalhando em sua empresa de transportes terrestres,
herdada dos seus pais. Em princípio achei uma meia loucura, mas, para um rapaz
do interior, ainda bastante jovem, seria uma aventura deslumbrante, e na pior
das hipóteses, me daria mais experiência de vida e aprenderia a falar inglês!
Ela
mandou preparar meu passaporte, comprou roupas adequadas quando chegamos a
capital, que eu me senti um galã de cinema ao lado de uma loura super charmosa.
Formávamos um casal muito bonito, mesmo com a diferença de etnias!
Encurtando
a história, hoje estou morando em Nova Yorque, sou um executivo da empresa
Truder Companny, temos dois lindos filhos (ambos morenos), somos bastante
felizes, e sempre que posso venho ao Brasil, vou a minha pequena e querida
cidade pra ver meus pais e amigos. Olho para a praia e me lembro da minha
antiga vida, que, jamais pensei em acontecer uma guinada tão grande!
Veja
você que quando a felicidade quer e bate em sua porta, não tenha medo. Se
prepare e tenha coragem de enfrentar as oportunidades que surgem. Às vezes ser
aventureiro tem suas compensações. Mas, tenha cuidado, pois nem sempre as
coisas acabam as mil maravilhas!
*Escritor,
Historiador, Cronista, Poeta e um dos membros fundadores da Academia Grapiúna
de Letras!
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