sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Preparativos de Papai Noel!

Antonio Nunes de Souza*

Ante véspera de Natal a equipe de Papai Noel está na maior agonia no grande depósito, fazendo a seleção de presentes, colocando endereços e CEPs para facilitar as entregas, mesclando as substituições em função de não merecerem ou estar em falta, fazendo a parte mais chata que é a de embrulhar com laços e fitinhas, etc.!

Uma equipe dos mais jovens auxiliares está selecionando as Renas mais ariscas, fortes e sadias para a grande viagem em volta da terra, fazendo suas paradas em chaminés e janelas com meias ou sapatinhos dos esperançosos que, mesmo depois de adultos, continuam acreditando em milagres!

Papai Noel, como sempre foi um velhinho previdente, todos os anos faz um check-up completo um mês antes do Natal, pois, não gosta e nem acha sensato aparecer indisposições de última hora. Ele nunca esqueceu uma noite que, na hora da saída, deu uma disenteria e ele teve que ir levando dois penicos no trenó e fazendo suas necessidades pelos caminho!

Como ele é uma figura lendária, suponho que já tenha nascido velho e com barbas brancas, pois, nunca soube nada a respeito dele adolescente ou jovem fazendo entregas de presentes. O fato é lhe queremos um bem muito grande, lhe dedicamos muito amor, pois, a bem da verdade, faz a alegria das crianças e, muitas vezes, dos velhinhos e adultos!

Então, esperem todos a sua chegada, enfeitem a suas casas, coloquem suas árvores iluminadas, por menores que sejam e, amanhã a noite, se ele não aparecer, transformem-se todos em Papai Noel e façam a felicidade de todos que estão em suas voltas, mostrando solidariedade e humanismo!

*Escritor – Membro da Academia Grapiúna de Letra – AGRAL – antoniodaagral26@hotmail.com

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A história do doutor Sabi!

Antonio Nunes de Souza*

- Boa tarde Dr. Sabi. Eu sou o jornalista José Roberto designado pela tv para entrevistá-lo, em função do senhor ter ganho o prêmio máximo da Academia Sul-americana de Psicanalistas!
-Boa tarde e muito prazer! Queira sentar-se, dê as coordenadas ao seu câmera e estou as suas ordens! 
-Geralmente as entrevistas são feitas através de perguntas e respostas, mas, o meu estilo é um tanto diferenciado e, como estou tratando com um homem qualificadíssimo e respeitado mundialmente, com o dom de oratório invejável, prefiro, se não for incômodo, ligar o microfone e a câmera e o senhor, sem interrupções, narrar a sua história desde criança!
-Será interessante dessa forma, pois, com a liberdade de falar o que desejo, certamente, contarei fatos desde minha infância até os dias atuais. Pois, sem querer ofender a capacidade jornalística de ninguém, já tive oportunidade de ser entrevistado em algumas ocasiões e, infelizmente, saí decepcionado com as tolas perguntas, comprovando o despreparo do entrevistador!
-Sou filho de família paupérrima, meu pai um lavrador analfabeto, assim como a minha mãe, ambos empregados de um velho coronel do cacau, itabunense que morava na cidade e fazia periódicas visitas a sua grande roça, produtora de 6 mil arroubas de cacau. Como você pode ver, sou negro, de descendência africana, uma vez que meus pais eram descendentes diretos de legítimos africanos. E, naquela época era comum os patrões, nas suas sabedorias, como era praxe os trabalhadores pedir aos patrões para batizar os seus filhos, eu fui batizado pelo coronel, na capela da fazenda, quando o padre vinha fazer mensalmente uma missa!
-Já com dez anos, forte e com ótima saúde, como era hábito, os patrões escolhiam sempre mocinhas e meninos seus afilhados, para dizer que iam cria-los na cidade e levavam para servirem de escravos domésticos, nos matriculando em escolas públicas a noite que, pelo cansaço do trabalho durante o dia, ficávamos quase cochilando nas salas de aula. Porém, como eu percebi que só quem tem valor nas cidades são as pessoas que sabem ler e escrever bem, fazia um esforço sobre humano e, não só estudava a noite, como também durante o dia em qualquer horinha livre, metia a cara no livro!
-Os filhos do patrão me colocaram logo o apelido da SABI. E eu, como nem sabia o que e porque, atendia por esse nome, enquanto todos davam risada. Eu até que achava engraçado, mas, nem sabia o porquê!
-Desculpe doutor a minha interferência, mas o seu nome não é Sabi?
-Claro que não! Mas, depois foi que eu fui descobrir que, por eu ser negro retinto e pequeno eles me chamavam de Sabi achando que eu era um saci com duas pernas. Assim formava uma junção da palavra “saci e de dualidade o bi”. Tenha certeza que fiquei com o maior ódio dessa discriminação e deboche que eles, sarcasticamente, procediam. Não que me sentisse inferiorizado, mas, pela maneira desprezível que era pronunciada com um sorriso de deboche nos lábios. Resultado é que todos da casa já me chamavam, até a asquerosa da minha madrinha que explorava meu trabalho infantil.
Mas, você pensa que todas essas coisas me melindravam? Nada disso, serviam de estímulos para que, com 17 anos já estar terminando meu secundário e preparando-me para enfrentar o vestibular. A essa altura já um rapaz, experiente e bem informado, fazia as funções domésticas, lavava os carros, limpava os sapatos, a piscina, lavava toda área em volta da grande casa, cuidava do jardim e da grama, além de compras e outros pequenos e grandes serviços. E isso tudo em troca de casa e comida e alguns trocados eventuais, pois eu não era empregado era um “parente” que ajudava nos serviços domésticos. Até as minhas roupas eu herdava das velhas e fora de moda dos seus dois filhos. Uns canalhas exploradores, que utilizavam esse método habitual na região!
Quando completei 18 anos fiz vestibular e passei em primeiro lugar em duas faculdades e segundo em outra, sendo bastante elogiado pela minha cor, perseverança, e ainda tive que suportar a minha madrinha se vangloriar e dizer que graças a sua bondade e cuidados que teve comigo, eu conseguir vencer essa etapa na vida.
-Vendo e sentindo isso, resolvi fazer um concurso, já que ganhei bolsa em duas das faculdades, além da federal e, pelo meu preparo e abnegação, consegui uma vaga de auditor no Estado, sendo o mais jovem dos meus colegas. Naquela época não era exigido nível universitário para trabalhar na auditoria. Imediatamente aluguei um pequeno apartamento quitinete num bairro suburbano, por ser mais barato e fui morar sozinho, mesmo levando a pecha dos meus exploradores de mal agradecido em abandonar os serviços, pois obrigariam eles pagarem, pelo menos, um salário mínimo à um substituto!
Com 23 anos terminei minha faculdade, sendo um dos mais brilhantes da turma e, por essa razão, tornei a ganhar uma nova bolsa, desta feita para fazer pós graduação e mestrado. Não pestanejei e nem de longe deixei de estudar em qualquer minuto livre, procurando sempre ser o melhor e conseguir meus objetivos. Na minha tese de mestrado apresentei um trabalho que foi publicado nos Estados Unidos, com uma admiração tão grande pela minha classe que, a Oxford University me convidou para fazer o doutorado sem nenhuma oneração de custos e ainda uma bolsa complementar de mil dólares mensais para minhas despesas com livros e alimentação!
-A essa altura, pelo hábito de viver anos sendo chamado de SABI, todos os meus trabalhos publicados em revistas especializadas, seminários, conferências, etc., eu sempre usei o meu apelido como pseudônimo. E, como meus trabalhos sempre foram marcantes e provocavam discursões elogiosas, ninguém se preocupara em saber, na verdade, como era o meu nome real. Até a mídia, quando fui lançar meu primeiro livro, com 32 anos de idade, com todos os certificados da linha profissional e curricular, bradou e escreveu em letras garrafais: Doutor SABI lançará seu livro em S. Paulo e este foi elogiado e prefaciado pelo grande filósofo e prêmio Nobel da Literatura Fernando Caldas!
-Depois disso, passei a continuar estudando, fazendo cursos em Cornnel, Cambridge, França, Suíça, Alemanha e outras partes do mundo, já publiquei 23 livros, onde cito as minhas experiências vividas, pesquisas comprovadas, desenvolvimentos mentais e espirituais, as análises e suas nuances, em fim, os segredos da mente humana!

-E, por conta de tudo isso, fui gentilmente agraciado com essa honrosa premiação!
-Sensacional a sua história doutor Sabi. Tenho certeza que servirá de estímulo para muitas pessoas, perceberem que, em vez de se melindrarem, terem coragem frente as adversidades e preconceitos, lutarem mostrando que são capazes de alcançar admiráveis posições profissionais!
-Para finalizar eu gostaria que o senhor dissesse como é o seu verdadeiro nome para os nossos telespectadores!
-Meu nome é Adalmir Theodorico Pacheco de Farias!

*Escritor – Membro da Academia Grapiúna de Letras – AGRAL – antoniodaagral26@hotmail.com



Querido Papai Noel!

Antonio Nunes de Souza*

Todos dizem e repetem, continuadamente, que quando envelhecemos voltamos a ser crianças. Embora isso pareça uma coisa estranha e nem sempre verdadeira, pois conheço milhares de velhinhos espertíssimos, com suas mentes completamente ajuizadas e, sem exageros, cada vez mais adultos em seus comportamentos!

Partindo desse princípio, comecei a fazer muitas observações e pesquisas, chegando a conclusão que, para serem paparicados, dengados, acariciados e, verdadeiramente, sejam feitas as suas vontades, usam dessa estratégia pseudo infantil, conseguindo, facilmente, alcançar seus intentos. Eu, particularmente, não tenho netos, mas, já ouvi milhares de vezes pessoas dizerem: “Vovô, ou papai, está parecendo um menino com suas vontades, pedidos e teimosias!” E, generosamente, realizam suas caprichos nos mínimos detalhes!

Porém, conversando com os velhinhos, pois no meio deles sou visto apenas como mais um, eles foram me confiando essa estratégia usada para se dar bem na terceira idade e poder, fazer tudo que desejam sem que haja reclamações, proibições nos seus cabíveis ou descabidos intentos. Depois de suas vitórias caseiras, ficam as gargalhadas se vangloriando das suas sabedorias sapecas, nos grupos de cabeças brancas ou carecas!

E foi aí que consegui oficializar essa minha pesquisa que, verdadeiramente, os velhinhos vovôs não tem nada de crianças, apenas, sabidamente, usam dessas atitudes que não são prejudiciais, sendo de uma grande compensação para eles que são beneficiados, e para seus descendentes que se sentem bastante felizes, causando a felicidade daqueles que, no passado, fizeram todas as suas vontades!

Assim sendo meu querido Papai Noel, vou lhe fazer um grande pedido para que esse segredo fique apenas entre nós, procure conservá-lo e, com carinho e sua afetividade peculiar, traga em seu trenó todos os presentes que os vovôs pediram, por mais estranhos que possam parecer!

*Escritor – Membro da Academia Grapiúna de Letras – AGRAL – antoniosaagral26@hotmail.com

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ele veio me contar (quatro)

Antonio Nunes de Souza*

Pacientemente fiquei a espera de um novo contato com vovô, mas, na verdade, sabia que demoraria, pelo menos duas semanas para dar tempo a sua ida ao Purgatório, fazer seu “Seminário de Adaptação”, tomar também conhecimento se ficaria de quarentena, ou não, purgando alguns dos seus maiores pecados!

Entretanto, como sempre ocorria, bastou eu acabar de almoçar e me deitar no sofá para ver o jornal Hoje, com dez minutos, chega meu avô, com um ar agoniado, porém com sua tranquilidade habitual nos gestos e olhos. Sentou-se ao meu lado e foi logo dizendo:
-A coisa está ficando cada vez mais difícil. Minhas economias alimentícias já acabaram, está meio barra conseguir uma boa quantidade das que vem de contrabando do Paraguai, pois tem uns figurões lá que arrematam tudo. E hóstias no câmbio negro lá é mesmo que dólar e muito acima do preço oficial!
-Fui ao Purgatório e pude ver que lá você chora e a mãe não vê. Tem um tal de um Desembargador Moro (parece que é o pai ou avô do juiz do Paraná), que, depois de examinar a sua ficha de vida terráquea, despacha imediatamente, a sentença que lhe compete e, sem delongas, ou direito a entrar com defesas, você vai cumprir o determinado e, se reclamar, a pena é dobrada automaticamente!

-E comigo, foi a seguinte minha condenação: Passar uma semana no Inferno, sem regalias, acompanhado juntamente com um importante diabo que atende pelo nome de Malvadeza, todos os métodos e lugares onde os maiores pecadores cumprem suas sinas e pagam os grandes pecados cometidos. Pelo apelido desse homem você pode ver que não é flor que se cheire!
Meu Diabo guia chamou duas “capetaxis” (motos que atendem no inferno), montamos na garupa e os diabinhos socaram o pé na velocidade, quase voando por entre as fogueiras e pequenos vulcões que alimentam de fogo os ambientes do inferno. Só não me caguei de medo, porque fantasmas não cagam, senão teria me borrado todo. Mas, Malvadeza ia sorrindo e se divertindo com minha cara assustada. Primeiro paramos em uma série de lareiras quase em brasa, todas cheias de gente gemendo. Ele me disse: Esses são pequenos castigos para pecadores de terceira categoria que, por bondade de Satanás, depois de um ano nesse modesto sofrimento, voltarão para o purgatório, cumprirão algumas peninhas complementares e, se tudo correr bem, irão para o céu.
-Imaginei logo as merdas que iria ver adiante! E isso com um calor filho da puta sem poder dizer nada!
Seguimos nos ‘capetaxis” até chegarmos a umas enormes piscinas de aço inoxidáveis, cheias de azeite quente até a boca, e dentro abarrotadas de gente, gritando e pedindo perdão, alguns dizendo que estavam arrependidos, outros dizendo que foi acidente, etc., o fato era que era uma cena monstruosa, terrível e, Malvadeza ainda mandou fazer umas ondas no óleo para “refrescar” as cabeças dos judiados! Juro que me deu vontade de vomitar com tamanha barbaridade, porém, imagino as desgraças que aqueles caras fizeram para estarem naquela situação. Os vivos perversos e criminosos, ruins e egoístas que se cuidem! E esses eram apenas os de segunda categoria, fiquei imaginando o que acontece com os de primeira categoria!
Continuando a nossa rota, paramos numa planície que, ao longe, toda amarelinha, me pareceu um quadro de Van Gogh, mas ao chegar perto vi que era simplesmente fogo que saía da terra de meio a meio metro, com labaredas de dois metros de altura e, nos diversos cercados de 200 metros quadrados, com mil homens cada um, sendo queimados e assados como se fossem aqueles frangos vendidos nas padarias. Em outros cercados estavam cheio de pecadores estupradores e xenófobos que, centenas de “Diabogays” enfiavam nas bundas deles os tridentes em brasa, se vingando das discriminações e perversidades que sofreram na terra. Esses eram os de primeira categoria e mais ruins durante suas passagens pela terra!

-Depois de ver tudo meu netinho, uma semana de sofrimento somente de ver que, quanta gente que se diz boa na terra terá que enfrentar, voltei para a Central Infernal, me despedi de Malvadeza agradecendo a gentileza e, mais que depressa, saí pela janela voando direto para o Purgatório, levando embaixo das asas meio chamuscadas o meu “Certificado Satânico” de turismo infernal!
-Voltei para o céu, completamente amofinada e vi que por pouco escapei de sofrer tantas desgraças, que muitas pessoas acham que não existem. Pois, vocês ruins e miseráveis vão ver e sentir o que lhes aguardam depois da morte!
Vou dar um tempo sem aparecer, pois já estou meio manjado no céu, meu anjo da guarda (gente boa) já está me chamando a atenção e, como a minha intenção é vasculhar a vertente espírita, terei que estar bem municiado de hóstias para conseguir meus passes na surdina. Beijos e abraços meu neto querido e espero que tenha lhe tirado uma série de dúvidas, tenha lhe deixado bem informado para você ainda ter tempo para se redimir e chegar no céu com todos os direitos, inclusive receber logo “Minha nuvem, Minha Morte” com quarto e sala, ou até com dois quartos!

*Escritor – Membro da Academia Grapiúna de Letras – AGRAL – antoniodaagral26@hotmail.com